as últimas semanas não têm sido fáceis para ninguém. toda a família, alerta. não se dorme. o toque do telefone[que nos assusta, súbita e violentamente] não nos dá tréguas. sente-se que a neblina escura e fria do medo nos envolve, estreita-se e nos constringe.
como é que deixou a sua mãe chegar a este ponto?
a pergunta não me foi feita a mim. mas, senti como se tivesse sido. "E" está muito mal, muito mal, mesmo. porém, a pergunta não deveria ter sido dirigida ao filho[que está desesperado, que precisa que lhe digam que vai tudo correr bem, que em breve terá de volta a sua mãe]. a pergunta deve ser feita ao médico de família que, durante vários meses[repito, vários meses] disse a "E", que não tinha nada, que era tudo da "sua cabeça"; que disse "que não se interna ninguém, enquanto não há um diagnóstico"...
[eu acreditava que os hospitais serviam, também, para diagnosticar. afinal, não. só se interna alguém, quando há um diagnóstico. vivendo e aprendendo...]
"E" emagrecia a cada dia que passava. o sopro da vida, também ele, ficava cada vez mais ténue. exames, consultas, urgências, transfusões de sangue, soro... muito soro. cada vez mais fraca, mais magra. tinha de ser carregada ao colo porque não se mantinha de pé. as forças, há muito que tinham desaparecido[àquela mulher que jamais faltou ao trabalho, que fora sempre o pilar do seu lar... forte como sol que queimava a sua pele clara].
nada, contudo. a "E" não tinha nada.
os amigos, desesperados, conseguiram que um outro médico a consultasse[mais um, entre tantos: o médico de família, vários médicos do hospital de alijó, do centro hospitalar de vila real, de clínicas privadas e urgências dos dois hospitais já mencionados]. este médico, psiquiatra, perguntou-lhe se queria ser internada. respondeu que sim. fustigada por dores abdominais, o corpo repleto de edemas, derrotada pela fadiga e acometida de uma grande debilidade. e magra[tão magra...]. sim. ela queria muito ser internada. e foi.
[eu acreditava que os hospitais serviam, também, para diagnosticar. afinal, não. só se interna alguém, quando há um diagnóstico. vivendo e aprendendo...]
"E" emagrecia a cada dia que passava. o sopro da vida, também ele, ficava cada vez mais ténue. exames, consultas, urgências, transfusões de sangue, soro... muito soro. cada vez mais fraca, mais magra. tinha de ser carregada ao colo porque não se mantinha de pé. as forças, há muito que tinham desaparecido[àquela mulher que jamais faltou ao trabalho, que fora sempre o pilar do seu lar... forte como sol que queimava a sua pele clara].
nada, contudo. a "E" não tinha nada.
os amigos, desesperados, conseguiram que um outro médico a consultasse[mais um, entre tantos: o médico de família, vários médicos do hospital de alijó, do centro hospitalar de vila real, de clínicas privadas e urgências dos dois hospitais já mencionados]. este médico, psiquiatra, perguntou-lhe se queria ser internada. respondeu que sim. fustigada por dores abdominais, o corpo repleto de edemas, derrotada pela fadiga e acometida de uma grande debilidade. e magra[tão magra...]. sim. ela queria muito ser internada. e foi.
na ala psiquiátrica.
porque a "E" não tinha nada.
não resistiu mais que dois dias. e, na segunda entrada nas urgências, após internamento na ala psiquiátrica[sim, foi por duas vezes, admitida nas urgências do centro hospitalar de vila real depois de ser internada na ala psiquiátrica!!! e só na segunda vez], foi, finalmente, diagnosticada.
uma peritonite resultante de uma oclusão intestinal devido a uma neoplasia de 10cm.
simples, não?
afinal, não era nada...
como é que deixou a sua mãe chegar a este ponto?
[em estado crítico, coma induzido, ferida cirúrgica aberta. febre muito elevada. infecção que não cede, prognóstico muito reservado]
a pergunta está mal formulada:
como é que dezenas de médicos, durante mais de três meses, chegaram a minha tia, a irmã da minha mãe, chegar a este ponto???


















