sábado, 21 de maio de 2011

{dicionário de bolso | d}

desumanização
(desumanizar + -ção)
s. f.
1. acto ou efeito de desumanizar.
2. perda de determinadas qualidades morais humanas.

in priberan

[ontem fui ao ipr]

isto já se arrasta há muitos anos. décadas[eu era, ainda, uma menina]. consequentemente, conheci várias dezenas de médicos. destas várias dezenas, lembro-me de seis. [de tantos médicos, lembro-me] só seis médicos.

quando era criança, acreditava que os médicos eram uma espécie de anjos-da-guarda enviados por deus, para nos ajudar. quando começaram as dores, quando os médicos disseram à minha mãe que não era nada, que era tudo da minha cabeça... eu comecei a perceber que não. definitivamente, não eram nada[uma espécie de] anjos-da-guarda[enviados por deus, para nos ajudar].

passei uma infância complicada, no que diz respeito a dores. a adolescência não foi menos complicada e a juventude... também. contudo, o pior foram os últimos dez anos. dez anos. uma década. passada em hospitais[urgências, consultas, exames], em clínicas privadas[urgências, consultas, exames]. e o diagnóstico foi sempre o mesmo: fantasia da minha cabeça.

o mau, não era o diagnóstico mas a frieza. a indiferença, o desinteresse... a insensibilidade. a arrogância. as consultas tinham uma duração curta[muito curta mesmo]. a maioria dos médicos nem olhavam para mim. assim que começava a falar, já estavam a prescrever a terapêutica a seguir. prozac e xanax? não são medicamentos muito fortes? não há medicamentos muito fortes, há medicamentos necessários. e assim, lá andava eu, numa espécie de alienação, cheia de dores. sim... porque as dores, essas, permaneciam.

eu sei que nem todos os médicos são assim[felizmente]. destas largas dezenas de médicos que me atenderam, tive a sorte de conhecer seis[sim... só seis, não estou, de forma alguma, a exagerar: são mesmo seis] médicos que me trataram como ser humano[ser consciente, sensível, que se interroga]. duas médicas, nas urgências do hospital amadora-sintra, a minha[muito recente] médica de família, um reumatologista[que me atendeu (sem credencial porque a minha médica de então recusava-se a passar uma e mandava-me trabalhar, porque eu não tinha nada) que, com a ajuda de análises clínicas, radiografias e uma cintigrafia, me diagnosticou e me disse que não era da minha cabeça: era espondilite anquilosante] e o meu médico de medicina integrada[afinal, os anjos-da-guarda enviados por deus para nos ajudar, sempre existem].

acredito que os médicos estão sujeitos a muita pressão. eu jamais poderia escolher essa profissão porque não possuo a maioria dos requisitos necessários para exercer medicina tal como ela deve ser exercida. sei, também, que uma consulta, para ser "útil", não pode ultrapassar os dez, quinze minutos. mas, nesses dez, quinze minutos, mesmo pressionados... custa muito tratar o ser humano que está à sua frente como um ser humano deve ser tratado?

[este ser humano encontra-se, na maioria das vezes, frágil, assustado... precisa que alguém lhe olhe nos olhos e lhe diga, preto no branco, o que se passa. mas de uma maneira clara, tratando os "bois pelos nomes". não como se fosse um ignorante que não percebe, por isso, não percamos tempo a explicar]

ontem fui ao ipr. já contei a várias pessoas, o que se passou naquele consultório. e contei, ainda, o que se passou há dois meses, também no ipr. dois médicos diferentes. a mesma atitude arrogante de seres humanos que, de certa forma, se devem sentir uma espécie de deuses, acima do comum mortal, só porque conseguem dizer, muito depressa, palavras difíceis como neurocisticercose ou salpingooforectomia.

estive os últimos cinco anos sem ir ao ipr. e parece que irei estar os próximos cinco anos, sem lá voltar. porque não vale a pena. saio de lá mais doente, mais incapacitada, mais enfraquecida. para isso, já me basta a espondilite que me inflama a vida. que consegue transformar uma estrada num caminho de terra batida, cheia de buracos, aos altos e baixos, que não nos leva a lado nenhum senão ao precipício.

até agora, tenho conseguido viver com a doença, da melhor maneira que sei, que consigo. terapias alternativas. terapeutas alternativos. muito estudo. muita investigação. muitos testes, muitas experiências nesta cobaia viva que é o meu corpo.

pelo menos, não tenho que lidar com a ignorância alheia.

sim, ignorância... um indivíduo tem que ter um desempenho académico notável para ser médico. mas... esquecem-se que, o mais importante, não são as notas que se conseguem nos exames. é a capacidade de se dar.

um dia destes, a minha médica de família disse-me que um médico é, somente, alguém com uma grande capacidade de memorização. ora... o que há mais por aí são indivíduos com uma grande capacidade de memorização. provavelmente, esse é o problema.

se os nossos médicos não fossem notáveis académicos, mas excelentes seres humanos... tudo seria bem melhor...

12 comentários:

Ritinha disse...

Xiiiii, amiga! O que raio te aconteceu no ipr??? Mas sabes que tens razão? Há médicos que não lembram nem ao raio! Eu também tenho a minha lista de médicos com quem eu posso contar e acredita que se contam pelos dedos :( o que me vale é que são poucos mas muito bons. Como tu lhes chamas: anjos-da-guarda que Deus nos enviou para nos ajudar :)

acácia rubra disse...

Estudam mas esquecem-se de que mais do que o saber, quando a eles recorremos, é sentir a sua postura humana.

Essa não a adquiriram porque "estiveram" em função das notas de acesso.

Essa constrói-se VIVENDO e eles "estão" apenas para cumprirem horários nos hospitais e para olharem para o número de consultas e respectivo valor, nos consultórios.

Beijo

Eva Gonçalves disse...

A selecção da frequência do curso de medicina não deveria ser apenas pelas notas... e o mal é esse... há muitos médicos sem a mínima vocação... e a própria formação não favorece essa humanização... e outra coisa, que é o respeito pela família do doente...

Lisa disse...

Sinto-me obrigada a concordar contigo, amiga. Se alguns médicos saíssem de pedestal, tudo era melhor. O que nos vale são os poucos que são realmente médicos, no verdadeiro sentido da palavra. Um beijo.

Fê-blue bird disse...

Amiga:
Infelizmente há muitos "profissionais" de medicina assim, mas também há aqueles que nos fazem esquecer os ditos ;)
Conheci um médico à pouco tempo, que me impressionou, pela atenção e dedicação com que tem acompanhado a minha sogra.
Sinal que ainda há esperança para a humanidade.

beijinhos muitos

Catsone disse...

Caríssima, tenho pena do que escreves neste texto. Pena pq valorizo imenso a minha profissão e reconheço, em alguns, esses adjectivos que utilizas. Não concordo que uma consulta deva ter apenas 15 minutos; ela deve ter o tempo necessário para se procurar uma solução para o problema. Espero que encontres mais médicos dignos do juramento hipocrático; eles andam aí, acredita :D
Que tudo corra bem.
Boas viagens.

cc disse...

É tão triste saber que estas coisas acontecem. Um beijo.

Jayranne disse...

Bom, senti-me sensibilizada com o post. Ainda mais por ser estudante de medicina. Vai parecer bobagem o que vou dizer, mas eu mesma sempre mentalizo: que eu seja forte pra nunca me desviar daquilo que acredito. O "sistema", acredito que tanto aí como aqui no Brasil, é impiedoso com os profissionais de saúde: carga horária de trabalho estressante, a responsabilidade sobre a vida das pessoas é algo muito pesado e que se não soube ser encarada pode acarretar grandes problemas psicológicos. Eu não estou defendendo os maus médicos, estou tentando acrescentar alguns dados para que a medicina seja avaliada como algo bem mais amplo que depende muito do sistema de saúde.

Thê disse...

Dizem que há bons e maus profissionais em todas as profissões mas eu acho que nesta profissão... olha, nem sei o que te diga.

Pedro Pires disse...

Fico sem palavras. Mas pensa que já passaste por muito e conseguiste vencer :)

anita disse...

Tão revoltante amiga. Mas o que importa é que estás a conseguir ultrapassar tudo. Mesmo sem a ajuda dos médicos e companhia!

dandelion disse...

Vai na volta, passaram com 10 valores porque foram apanhados a copiar nos testes :\