sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

{31 de dezembro de 2010}




uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança.

carlos drummond de andrade



hoje é o último dia do ano. tanto caminho percorrido... tanto que mudou, a minha vida.

pessoas que chegaram. pessoas que ficaram. mais vitórias alcançadas. sonhos realizados. alegrias vividas [e, que ainda se estão a viver].

e amanhã é dia...
Feliz Ano Novo

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

{short cut}

@

Aparecem de mansinho, durante a noite, enquanto dormimos. São crianças com botinhas de lã que se passeiam pela casa por horas tardias e não querem acordar os seus pais.

São pequeninas, pelo menos no início. Ouvi dizer que algumas já nascem em nós, mas eu não acredito. Acho que vêm pela calada da noite, sorrateiramente, enfiam-se por debaixo dos lençóis e agarram-se a nós. E cá ficam. Pelo menos até as mandarmos embora.

Mas não depende só de nós. Dizem que elas crescem e que podem perder tamanho, consoante a quantidade de comida (importância) que lhes damos. São alimentadas por mim. E por ti. E por todos que comigo se cruzam.

Aparecem, agarram-se a nós. Por vezes, são alimentadas de tal maneira que perdemos o seu controlo e passamos a ser nós alimentados por elas. Chamam a isto: loucura, insanidade, perda de consciência. Dominam-nos.

Há aquelas que são boas. Há aquelas que são más. É preciso cuidado com a quantidade de comida (importância) que lhes damos.

Ouvi dizer que algumas morrem, e dão lugar a novas crianças, com o mesmo nome, com características semelhantes, mas diferentes. Mesmo aquelas que têm o mesmo nome são diferentes. Elas são sempre diferentes. Não há duas iguais. É, pura e simplesmente, impossível.

Variam consoante tudo. Tudo as transforma. São muito sensíveis, mais do que nós próprios, e mais do que aquilo que queremos que elas sejam. Captam tudo, sem que nos apercebamos, só para mais tarde nos lembrarem (qual dor, ou alegria!). Já deixei algumas morrer. Algumas felizmente. Outras infelizmente. Mas com tudo é assim. Nada permanece igual. Tudo muda. TUDO.

Elas ensinam coisas importantes. Manter o que deve ser mantido. Libertar o que deve ser libertado. E não fazer muitas perguntas. São crianças. Não sabem o que é o mundo. Limitam-se a guiar-nos. E, nós, estúpidos seres humanos sentimentalóides, deixamo-nos guiar, cegamente, por elas.

Ouvimos as suas vozes e sorrimos ou choramos, de uma maneira ou de outra, elas controlam-nos e, nós, estúpidos seres humanos sentimentalóides, deixamo-nos controlar. Paramos sempre para as ouvir. Elas manipulam-nos.

Eu paro e escuto. E o que escuto? Ah...risos! Gargalhadas de crianças (felizes!), e o vento que agita as folhas. Sim, ouço as folhas roçarem umas nas outras emitindo sons que se assemelham ao amachucar do papel. E deixo-as plantar (novamente). Foram elas. Só podem ter sido elas.

Durante a noite, pé ante pé, plantaram. E sussurram aos meus ouvidos palavras indecifráveis que me fazem sorrir. O que dizem elas? Não sei, e nem vou tentar descobrir. Mas, na imensidão de vozes que ouço consigo identificar uma frase. Constante. Uma e outra vez. E outra vez. E sorrio.

***

a marina escreve de uma forma que nos toca, bem lá no fundo da nossa alma. hoje sorri... e não resisti: "roubei-lhe" sorrateiramente este texto do seu blog unthought known e trouxe-lo para aqui.

sábado, 25 de dezembro de 2010

{hoje é dia de natal...}


hoje é dia de era bom.
é dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

é dia de pensar nos outros — coitadinhos — nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

comove tanta fraternidade universal.
é só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao criador.
e mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

de novo a melopeia inunda a terra e o céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(vossa excelência verificou a hora exacta em que o menino jesus nasceu?
não seja estúpido! compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilowatts,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
é como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

a oratória de bach embruxa a atmosfera do arruamento.
adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
e a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra — louvado seja o senhor! — o que nunca tinha pensado comprado.

mas a maior felicidade é a da gente pequena.
naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
de manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

ah!!!!!!!!!!

na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do menino jesus.

jesus
o doce jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do pedrinho
uma metralhadora.

que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
o pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

já está!

e fazia-as erguer para de novo matá-las.
e até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

dia de confraternização universal,
dia de amor, de paz, de felicidade,
de sonhos e venturas.

é dia de natal.

paz na terra aos homens de boa vontade.

glória a deus nas alturas.


antónio gedeão

***


hoje é Dia de Natal... está na hora de Ser mesmo natal.

...feliz natal para todos...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

{as filhoses, os coscorões e as azevias já estão...}

...e a ceia está quase a sair.

a mesa está posta e a família já está toda reunida...

feliz natal

[cheio de luz, de amor, de carinho... afinal, é natal é só isso.]

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

{dicionário de bolso | b}

@

balanço

s. m.
1. movimento de oscilação ou de vaivém.
2. sacudidela, solavanco.
3. trapézio.
4. Fig. Hesitação.
5. mudança (sem carácter!caráter de duração).
6. com. operação de contabilidade tendente a conhecer a receita e a despesa de uma casa comercial.


in priberam
faz um ano que o meu caminho se dividiu em dois. a vida deu-nos esse milagre a que chamamos livre-arbítrio. e eu escolhi. ser feliz.

este ano foi muito importante para mim. ano de mudança, de retorno, de devolução. devolvida a vida, devolvida a esperânça, a vontade de recomeçar.

[não tenho uma crise daquelas mesmo feias há cerca de uma ano*. meu corpo retorna, aos poucos, à sua forma antiga. não estou totalmente livre de dores mas, comparando... posso dizer que estas dores, quase nem as sinto. ou se sinto, não me aborrecem. porque a doença entrou em remissão há um ano. e é isso que importa. só isso que importa]

com esta reviravolta na minha vida, tudo mudou. tudo está a mudar. sinto-me como se tivesse acordado de um coma de quase nove anos[um buraco negro ou um espaço em branco na minha existência... nada foi escrito ou tudo foi apagado por uma onda gigante que destruiu mas não levou os destroços com ela: deixou-os para que - se acordasse - nada fosse esquecido].

acordada do coma, há que retomar o caminho, voltar à estrada. aos poucos, tenho conseguido reconstruir o que a onda gigante destruiu. a casa[o lar], a família, os amigos. estou a aprender a aceitar[me], a perdoar[me] o passado.

o passado já passou, não existe mais. é um facto. mas pode deixar feridas que têm de ser tratadas, porque há sempre o risco de degenerar para algo mais sério. mas colocar um penso rápido não é o suficiente. para que a ferida cicatrize mais rapidamente e evitar possíveis infecções há que lavar primeiro, não só a ferida como também a zona circundante com um sabão, de preferência anti-séptico, de forma a remover tudo tudo o que seja necessário remover. depois, aplicar um desinfectante na ferida para que esta seja desinfectada correctamente. finalmente, proteger a ferida com a aplicação de um penso ou compressa...

com o tempo, fica só a cicatriz. não nos esquecemos que ali esteve uma ferida. mas também já não dói mais.

[é isto que eu tenho feito, estas últimas semanas: tratar as minhas feridas que, escondidas por debaixo de um penso rápido, não cicatrizavam e a infecção começava a alastrar]

o nosso corpo é fantástico. eu aprendi a escutar e a interpretar os seus sinais. sinais de algo que possa não estar bem. nestes últimos tempos[esta história do natal...] dei mais atenção às feridas. e quanto mais atenção dava, mais o meu corpo doía. mas, a doença está estável e as análises clínicas são prova disso...

foi quando me apercebi que estava
na hora

não bastava refazer a minha vida, continuar a caminhar por um caminho cheio de destroços - os tais, que a onda deixou. por isso, tenho estado a limpar, a desimpedir o caminho... e sim, já tudo começa a ficar mais claro. as flores, mais coloridas e até o seu perfume chega até mim com muito mais intensidade. com o caminho desimpedido, mais e mais caminhantes têm se aproximado de mim. não feches a porta a quem te ama, a avó tite disse-me. e assim estou a fazer.

os episódios negativos estão a ser submetidos a uma espécie de triagem. na miscelânea de maus e muito maus, comecei a procurar algo que pudesse ser considerado mais ou menos e, surpresa das surpresas: encontrei muitos bons e até excelentes.

este é o eterno problema de muitas pessoas. eu, incluída. claro. infelizmente. fixei-me no feio e o bonito passou-me ao lado como se nem tivesse existido. e apesar da pouca ou nenhuma importância que lhe dei[por estar demasiado centrada em direccionar todas as minhas energias para coisas absurdas, passadas], deu frutos que hoje, estão maduros, cheios de cor e com aquele cheirinho bom...

e os laços, rompidos à força, começam-se a
e
n
t
r
e
l
a
ç
a
r
aos poucos.

este ano foi, também, um ano decisivo para o meu pai. a sua recuperação está a ser um sucesso e os seus "colegas na doença" vêm-no como um exemplo a seguir. a minha mãe teve a sua primeira actuação em público! o verdadeiro bichinho do mato[porque a vida foi demasiado madrasta para ela] fartou-se de dançar e rir... estou totalmente babada com estes meus dois pilares que amo tanto.

e pronto... balanço do ano feito.

*[é verdade que estou a passar por uma pequena crise: começou há sensivelmente duas semanas e há dois dias que atingiu o seu pico de dor. mas, acredito que seja porque estive mais de dois anos sem fazer fisioterapia e agora, o corpo ressentiu-se. estou da cama, é verdade. também é verdade que ontem, a mãe do meu bebé teve que me trazer para casa, antes da minha hora de saída porque eu já não conseguia fingir mais e as dores estavam estampadas na minha cara (levei um sermão por lhe ter ocultado o que se passava), e é verdade que quase que teve que ser o toni a dar-me a sopa à boca, como antigamente. tal como é verdade que chorei de medo, muito medo... que tudo voltasse ao pesadelo que era.

contudo, algo em mim me diz que é só um susto. um halloween atrasado. e por isso, não choro mais e o medo foi-se com a noite... agora, aproveito o dia. tenho estado a dormir, a descansar. eu estava mesmo a precisar de uma folga. é isso. um dia de merecida preguiça... patrocinada por uma família linda que me acolheu e me mima...tanto]

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

{rewind}


lembro-me de chegares. trazias qualquer coisa dentro do teu casaco... o que trazes aí? a tua prenda de natal... posso ver já, posso? vá lá!!!

abriste o casaco e na tua mão estava uma coisinha muito pequenina, branquinha com duas manchinhas castanhas em volta dos olhinhos. um cãozinho?! sim... agora tens de ser tu a tratar dele, segura-o devagarinho. cuidado, é muito pequenino. e era! cabia na mão da minha mãe! eu tive que usar as duas porque eu também era pequenina.

a pantufa cresceu ao meu lado e eu cresci com ela. aprendemos muitas coisas juntas. para onde eu ía, ela seguia-me, sempre com o rabito a abanar.

quando a minha irmã nasceu, a pantufa tornou-se a sua "sombra". não permitia que ninguém tocasse na bebé e chegou a salvar a minha irmã, por várias vezes[a minha irmã era assim, como eu: só se metia em sarilhos. quando a pantufa pressentia algum tipo de perigo para a bebé, ficava louca a ladrar e a puxar a saia da minha mãe].

aquele natal, lembro-me, foi o melhor natal da minha vida...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

{cada vez mais pertinho do verão...}

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

{do avesso}


sempre quis ter uma vivenda. pequena, térrea[não gosto de casas grandes, perco-me lá dentro]. a razão principal não é a pequena piscina de água quente onde me refugiaria em horas de cansaço[como hoje, agora...], nem tão pouco o pomar repleto de frutos de todas as cores. a razão principal é a ausência de vizinhos. nem mais, nem menos. só.

há meses[desde o final de agosto], que não sabemos o que é uma noite de sono bem dormida. o que mais me irrita é que não mais é a dor que me alerta pela noite fora. são pessoas. miúdos convencidos que são adultos porque moram longe dos pais[apesar destes continuarem a pagar as despesas].

o segundo frente foi alugado a três jovens adultos[???],um rapaz e duas raparigas, mas o apartamento está sempre cheio. são às dúzias[eu já os contei...].

todas as noites, são noites de festa até tarde, muito tarde na noite. ou até de manhã cedo, como quiserem: cantam, dançam[de saltos altos, as meninas], riem à gargalhada estridente. muitas vezes, discutem. gritam, ofendem-se, batem com as portas. sobem e descem as escadas do prédio, seja dia ou noite, aos berros como se vivessem sozinhos.

os mais velhos do prédio reclamam a voz baixa. mas, mais nada.

já falei com o administrador. já falei com a proprietária do meu apartamento. já falei com o proprietário do apartamento deles...

uma destas noites, a mãe do rapaz toca-me à campainha. estou sem pinga de sangue. pede desculpa à senhora! alto, com uns vinte e poucos anos, de braços cruzados e cara emburrada murmura um mmmm.

[supostamente, isto deveria ser um pedido de desculpa?!]

a joaninha, quando faz algo que não devia e lhe pedem para pedir desculpa, também cruza os braços e também faz beicinho ao murmurar um qualquer coisa que aceitamos como um pedido de desculpa. mas, a joaninha tem cinco anos.

vários factores levaram-me a optar pelo aluguer. não só porque me recuso a alimentar pançudos oportunistas[a.k.a. bancos e afins] mas, principalmente, porque posso mudar-me assim que quiser. é que eu já passei por isto. e a privação de sono, aliada ao excesso de trabalho, resultou num esgotamento cujas mazelas ainda hoje me aborrecem. sim... a qualquer hora é hora de mudar...

[muda de vida...]

mas eu não quero mudar. estou perto da piscina onde faço a minha fisioterapia. estou pertinho do trabalho... e mudar dá tanto trabalho. e eu estou tão[mas tão] cansada...

mas se isto assim continuar, que remédio?

[é por isto que este blog anda tão lamechas. é por isso que eu ando sem forças para vir até cá mais vezes. é por isto que deixei, praticamente, de visitar os blogs amigos, de que quem sinto saudade porque fechavam a chave de ouro, os meus longos dias. privação de sono. é por isto]

e isto tudo deixa-me do avesso...

estou com tanto sono...

mas hoje é quinta. todos os dias são dias de festa rija. às quintas, é festa é brava....

sábado, 11 de dezembro de 2010

{narradores de memória}

contam que uma menina de três anos, saia rodada e totós enrolados em fitas cor-de-rosa tinha um primo de oito meses. era um bebé frágil, com um ligeiro atraso no desenvolvimento motor devido a complicações no parto.

todas as manhãs, um ritual: depois do banho, a mãe deitava o bebé, antes de o vestir, num pequeno colchão na varanda, a apanhar banhinhos de sol.

numa manhã dessas, a menina de saia rodada e totós enrolados em fitas cor-de-rosa foi ao frigorífico e trouxe com ela, uma embalagem de margarina planta[nessa altura, ainda só existia essa margarina, lá na terra dos sonhos]. também foi buscar o seu balde de praia que estava cheio de areia[das obras que decorriam lá em casa].

depois de besuntar o priminho bem besuntado[contam que usou a embalagem toda!], entornou o balde de areia por cima dele e, porque a menina de saia rodada e totós enrolados em fitas cor-de-rosa acreditava[e ainda acredito] que se tiveres que fazer alguma coisa, fá-lo bem feito, se não... não faças, com as suas mãozinha pequeninas, calcou a areia para que ela aderisse bem à manteiga, assim, tipo croquete[só que humano].

tudo isto muito rápido porque a minha tia nunca deixava o meu primo sozinho, por muito tempo.

contam que a minha tia levou as mãos à cabeça e deu um grito, quando viu o meu primo. contam que ela levou horas para conseguir tirar toda aquela amálgama de areia e gordura do seu corpinho frágil de bébe com um ligeiro atraso no desenvolvimento motor devido a complicações no parto... contam que levou outras tantas horas atrás de mim, de chinelo na mão. se ela te tivesse apanhado, matava-te...

[mas, mãe... custa-me um pouco a acreditar que uma menina tão pequenina tivesse planeado tudo isso, assim, tão ao promenor. mas, olha que assim foi, ouviste?! e todos os mais velhos, lá na terra, já te contaram como foi. não sei porquê a dúvida, agora. então, está bem. devia ser fresca... devia... ah, eras... eras...]

e é verdade. lá, na terra dos sonhos, todos os mais velhos contam esta história. tenho pena que ninguém tivesse registado em vídeo ou mesmo em fotografia... isto da tradição oral é uma chatice porque são cada vez menos, os mais velhos...

[se a matilde nascesse, gostaria que fosse assim. como a mãe foi um dia... tão pequenina mas com uma excelente capacidade de planear e de concretizar... é que este país está mesmo a precisar de mulheres assim]

sábado, 4 de dezembro de 2010

{mesmo calada a boca, resta o peito*}

fiz uma pausa na minha caminhada. se a vida me ensinou alguma coisa, foi a perceber quando parar[sossegar o corpo, sossegar a mente. escutar(me)]. foi o que eu fiz no fim-de-semana passado[ com a ajuda preciosa de uma gripe que, a propósito, não me larga... nem mesmo recorrendo ao leitinho com aguardente, mel de rosmaninho e açúcar mascavado].

sentia-me perdida, sem saber porquê... hoje, sei.

é só saudade...


sempre fui bastante sociável. durante os meus tempos de estudante, confesso, não saía do quarto[tal verdadeira marrona], mas quando comecei a trabalhar, nunca estava sozinha.

depois do esgotamento, que me levou a desistir da minha carreira na óptica [não só, mas também], na primeira oportunidade, inscrevi-me nas aulas de yôga e fui trabalhar numa empresa como recepcionista. durante o dia, estava com estes meus novos colegas e à noite, estava com o meu grupo de yôga. fiz muitos e bons amigos, tanto na empresa como na unidade de yôga.

o problema é que a espondilite começou a agravar de uma forma anormal, pelo menos, para o sexo feminino[é mais habitual acontecer em homens]. e depressa me vi obrigada a deixar tanto o trabalho como o yôga.

para complicar mais a situação, vi membros da família e amigos a afastarem-se, sem uma palavra... ou um porquê. aos poucos, fui-me tornando anti-social. revoltada com tudo[a dor física\psíquica leva-nos a fazer coisas realmente muito estúpidas], destruí o meu telemóvel e não abria a porta a ninguém. só houve uma pessoa que nunca desistiu de mim... se não abrires a porta, não tiro o dedo da campainha e tu sabes que não és mais teimosa do que eu. a paula, minha amiga de infância...

sem me aperceber, por meia dúzia de "supostos" amigos, afastei-me dos verdadeiros.

e só me dei conta disto, ao longo destas últimas semanas...


e é disto.
a saudade.

de entrar à socapa no centro de congressos de aveiro para assistir a concertos sem pagar. de estar a noite inteira, com a casa cheia, rodeada de petiscos[que eu cá tenho uma mãe que me ensinou a fazer coisinhas muito apetitosas]. de passear, à toa, sem horários ou destino. de subir a serra de sintra a pé, sempre por caminhos desconhecidos, atravessando propriedades privadas, fugindo de cães menos simpáticos. de comer um robalo assado naquele restaurante à beira-mar, na ericeira. de vaguear pelas praias de espinho, em dias de nevoeiro. dos retiros por esse portugal fora, com o meu grupo de yôga. de beber um chá de camomila numa esplanada qualquer, no cais da ribeira. dos piqueniques que fazíamos nos locais proibidos da boca do inferno. de entrar no mar de lagos, completamente vestidos, em pleno dezembro. de passear no parque da paz, em almada, depois de um pequeno-almoço recheado de frutos silvestres.

[...]


saudade. sim.

de estar com os meus amigos.

de voltar a ser quem eu sou.


*chico buarque

para a fábrica de letras, tema de dezembro

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

{hoje, a terra dos sonhos, está assim...}




[clicks de josé teixeira*]


*porque aqui a naba está de cama...


[é que era suposto eu estar lá... e eu que nunca vi neve... que @$%!!!]