terça-feira, 29 de junho de 2010

{ténis... ou avião?}


há muitas formas de fazer uma viagem. eu já caminhei muito mas também já andei de avião. viajar em primeira classe é diferente...

hoje, uma antiga companheira de viagem perguntou-me porque é que voltei à estrada, aos ténis. afinal [segundo ela], eu tinha tudo para voltar às viagens em primeira classe. fiquei a olhar para ela, por uns minutos...

voltar à primeira classe significa voltar ao poder, voltar ao jogo, à competição. eu gosto de competição: competir ajuda a crescer. mas... o mundo está tão diferente. a competição tornou-se suja. as pessoas, corrompidas pela sede de poder, não se importam de pisar e humilhar quem quer que seja para conseguirem alcançar os seus objectivos.

faz parte do jogo...
e eu não sei jogar.

[eu não quero jogar]

então, eu olhei para essa minha antiga companheira de viagem e disse-lhe que existem muitas maneiras de viajar. uns viajam em primeira classe, outros caminham. e assim está bem... nem todas as pessoas precisam de viajar de avião. há pessoas que caminham e gostam de o fazer. eu gosto.

ela não compreendeu. também não me esforcei muito para lhe explicar. há pessoas [principalmente, as que já viajaram em primeira classe] que acreditam que voltar a caminhar significa fracasso.
[how sad is it...]

a vida deu-me a hipótese de escolher: avião... ou ténis. eu escolhi os ténis. e estou feliz por isso. quem não compreender... uppss... paciência. as pessoas que são importantes para mim, os meus amigos e a minha família [a que importa, a que está e sempre esteve ao meu lado] entenderam a minha decisão. e isso para mim chega.

os outros... são os outros.

[tão longe de mim... os outros... felizmente, tão longe]

domingo, 27 de junho de 2010

{cair faz parte da caminhada... tal como levantar}

{and I get nosebleed
but I always get up}



hoppipolla by sigur ros


[é como se voltássemos a ser meninos e meninas, novamente. saltamos felizes nas poças de água e celebramos pequenas [grandes] vitórias com a alegria de uma criança. e mesmo com feridas nos joelhos e o nariz a sangrar... levantamo-nos sempre porque temos a vida toda pela frente...]

quarta-feira, 23 de junho de 2010

{o presente envenenado}

esta semana, a lição foi-me dada por uma criança de nove anos. a mãe recebeu um email ofensivo que a deixou bastante triste. ao ver a mãe, assim tão abalada, disse-lhe:



"recebeste um presente envenenado.
mas podes
decidir se o aceitas...
ou não"




todos os dias recebemos presentes envenenados. doença, desemprego, decepções que nos ferem de morte. a vida encarrega-se disso.

mas a pequena [grande] inês, com a sua sabedoria de criança, tem a resposta certa para estes presentes envenenados: nós temos o poder de decisão. podemos aceitar estes presentes... ou não.

não aceitar. não baixar os braços, ir à luta. jamais desistir perante um não. porque há sempre a possibilidade de existir um sim. acreditar no sim que existe em nós mesmos... desconfiar sempre no não dos outros.

quando fui diagnosticada, eu ouvi o não do médico: não, não existe cura. mas sim. ela existe. eu sou a prova. e existem mais provas por esse mundo fora. também me disseram que não conseguiria voltar a trabalhar. sim, estou a trabalhar [mais que alguma vez trabalhei]. ao meu pai, disseram-lhe que ele não voltaria a andar, depois daquele acidente terrível que ele teve. mas, sim ele voltou a andar [aliás, não pára quieto]. à otília pires de lima, disseram-lhe que não teria mais que três semanas de vida... e já lá vão anos...

e tantos outros não, que eu ouvi [tanto a mim, como a pessoas que eu conheço] que foram transformados em sim...

cabe-nos a nós decidir.


[e tu? aceitaste o teu presente envenenado?]

quinta-feira, 17 de junho de 2010

{os perigos da web, o pavilhão 29 e eu}


[o meu pai já teve alta e já está em casa... ]

enquanto esperava pelo meu pai, folheei uma revista que ali estava. susana santos escreve sobre a internet, sobre o perigo que pode estar escondido nos blogs, no twitter e nas redes sociais como o facebook. defende que, "muitas vezes, desconectar é a melhor opção".

segundo a socióloga maria de lurdes fonseca, do instituto superior de ciências sociais, "a internet estimula o narcisismo porque gera nos utilizadores uma necessidade constante de criar interesse sobre eles próprios. como se, de repente, todas as pessoas fossem muito talentosas, permanentemente informadas e superiormente inteligentes".

esta socióloga adverte para o perigo da desilusão. porque os amigos virtuais são meros números, que, na realidade não existem. e, se por acaso existir um contacto fora da web, "conhecer a pessoa cara-a-cara pode ser um choque".

eu já tive muitos amigos... não consigo precisar quantos, mas eram mesmo muitos. todos os dias era visitada, na óptica onde trabalhava, por dois, três amigos. havia jantares, saídas, viagens. posso dizer que eu era socialmente bastante activa.

quando fiquei doente, os amigos foram desaparecendo. das muitas dezenas de amigos ficaram três: a minha melhor amiga [há mais de 25 anos], o marido e o meu amiguinho de berço [eu tinha um ano quando ele nasceu e crescemos juntos]. todos os outros...

estava confinada a uma cama, com dores excruciantes. precisava de ajuda de terceiros para tudo.[eu caía vertiginosamente num poço que parecia não ter fundo, tentava agarrar-ma às paredes, mão não conseguia...]. a família também ficou reduzida. os meus pais, a minha irmã e uma amiga da minha irmã [que hoje é a minha irmã do coração]... e pouco [muito pouco mesmo] mais.

cheguei a ouvir de alguns elementos da família, autênticas barbaridades como "a trabalhar, isso passa".

quando me apercebi que os meus amigos, quase toda a minha família e o meu irmão [ele tratava-me por mana, éramos "unha e carne"], simplesmente, deixaram de existir, desisti de tentar agarrar-me. deixei-me cair... quando mais depressa caísse, mais depressa chegaria ao fundo. escuro, sem vida [porque eu quis morrer, porque doía demasiado. a doença e solidão]. estive tão perto do pavilhão 29... tão, assustadoramente, perto.

até que a minha irmã me apresentou a internet, nos finais de 2006. não sabia nada de nada. gmail, hotmail, blog... palavras que me eram totalmente estranhas, começaram a fazer parte do meu quotidiano, sempre que a doença dava uma trégua.

conheci o meu marido num fórum. o nosso namoro começou numa mensagem no gmail. e fui ter com ele [coisa que nunca, jamais se deve fazer... eu fiz porque tinha a minha melhor amiga do meu lado]. e quando fiquei cara-a-cara com ele, não foi um choque. foi ele que me estendeu a mão, foi ele que me devolveu a vontade de lutar, a vontade de me agarrar à parede.

foi na internet que descobri o tratamento da minha doença, conhecida por crónica [logo, incurável], incapacitante e degenerativa. os médicos de portugal não conhecem [ou não querem conhecer] uma saída diferente para a doença, que não seja a resignação.

também encontrei uma amiga. uma amiga na doença, uma amiga na procura da cura. uma amiga na cura. uma amiga que não consegue estar mais que algumas horas sem saber de mim. que me apoia incondicionalmente. meu porto de abrigo, muitas vezes, quando me se sentia perdida, no caminho. uma amiga virtual que se tornou real e, quando fiquei cara-a-cara com ela, não foi um choque.

hoje, à minha lista de amigos reais [poucos, mas verdadeiros], juntaram-se alguns virtuais. já começam a ser bastantes. os meus amigos virtuais são\estão mais presentes que os outros alguma vez estiveram. os tais reais que desapareceram assim que se aperceberam que eu já não lhes podia dar aquilo que eles queriam.

não... desconectar não é a melhor opção. como é que eu poderia desconectar-me de algo que me devolveu a vida? estimula o narcisismo? não faz mal... aliás, só me faz é bem.

[a internet pode ser perigosa, sim... tal como tudo na vida. temos que ser inteligentes e saber consumir moderadamente...]

aproveito por agradecer aos meus amigos virtuais todo o apoio que me têm dado. principalmente, nestas últimas semanas. cada mensagem foi preciosa, como gotas de orvalho em lábios ressequidos. obrigada pelo vosso apoio, pelo vosso carinho, pelas palavras amigas. eu não vos conheço, na vida real, mas têm sido todos muito importantes nesta etapa da minha vida...

e aos meus amigos reais... não são necessárias palavras, não é?

domingo, 13 de junho de 2010

{baby steps}



always look at what you have left.
never look at what you have lost.

Robert H. Schulle


[porque, na realidade, o que se ganha consegue superar o que se perde...]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

{rotinas ou a sucessão dos dias...}

todos os dias, de manhã, acordo: arranjo-me, tomo o pequeno-almoço e vou trabalhar. ao fim do dia, de volta a casa, trato de tudo que tenho a tratar, janto e deito-me. é assim, a minha rotina.

[e é assim a rotina de quase todas as pessoas que eu conheço]

até há pouco tempo, nem me dava conta da passagem das horas, dos dias. segunda-feira... domingo; 6 da manhã, meia-noite...

e também não me apercebia do mundo vivo que me rodeava. se chovia ou fazia sol. se estava frio, amaldiçoava o tempo e vestia um casaco. se estava calor, as sandálias... mas pouco mais.

acordar. trabalhar. comer. e dormir [ou, pelo menos, tentar]. sempre a correr: o relógio não dá tréguas. sem tempo para parar, para respirar...

[para viver]

estas duas semanas não foram fáceis para mim, confesso. voltei a sentir-me perdida... logo agora, que eu me entendia estar no caminho certo.

[mas... nada é certo. nada é garantido...]

as pessoas que eu conheci, nestes últimos dias, mostraram-me muito. umas com palavras, outras com gestos, olhares [ou a ausência deles]. para a maioria destas mulheres e destes homens, o hoje foi igual ao ontem e repetir-se-á amanhã. tal qual uma rotina.

uma rotina sem sol, sem nuvens. sem flores. sem pássaros. sem a brisa do mar ou os beijos suaves das ondas calmas da praia de cascais. sem o aroma da relva acabada de cortar ou o cheiro da terra molhada após uma noite de chuva. não há amanhecer ou pôr-do-sol. ou pastéis de nata. e, se uma criança lhes sorrir, eles jamais compreenderão esse sorriso. porque não o vêem, não o sentem.

estas mulheres e estes homens não estão cá. só o corpo. o olhar vazio revela que a alma já se foi há muito. para onde... ninguém sabe.

as horas passam. dia após dia. noite após noite. tudo igual. tudo na mesma. as mesmas paredes, os mesmos corredores. a mesma comida sem sabor [porque também o paladar se apagou].

[ontem, fui visitar o meu pai. foi uma surpresa: eu adoro fazer-lhe surpresas... ele está bem. muito bem, até. felizmente. penso que irá voltar em breve. e ainda bem porque estamos todos ansiosos por isso...]

ontem, cheguei à porta do pavilhão 29. espreitei. lá estava o rapaz da cor do chocolate, parado em frente à porta, de olhar perdido numa dimensão que eu desconheço. a senhora do caminho errante, mantinha-se firme no seu itinerário habitual... e a menina do gorro pediu colo. apesar dos seus dezoito anos, é tão frágil como uma bebé. precisa do toque como de ar, para [sobre]viver.

[dois mundos. o nosso, cá fora. o deles, lá dentro]

é sexta-feira. depois de um feriado, custou acordar para ir trabalhar. fazia frio, muito frio, aliás. e chovia tanto. sim, a cama, os lençóis e os cobertores estavam deliciosamente quentinhos. conforto... mas a rotina fala mais alto. porque tem que ser. porque há muito que fazer.

[hoje, contudo, algo mudou]

olhei-me no espelho e, em vez de dizer que gosto muito de mim, senti esse amor... não foram precisas palavras. o pequeno-almoço não foi engolido: saboreado... lentamente. não corri para o autocarro: senti a chuva na cara. cheirei a terra molhada do jardim por onde passo, todos os dias. e as flores... que cores tão vivas [pareciam gratas pelas gotas de água lançadas lá de longe, do céu cinzento que esconde o sol brilhante]. sorri para as pessoas, no autocarro. umas retribuíram os sorriso. outras, absortas nas suas rotinas, olhavam para o vazio - tal zombies.

[é pouca a diferença existente entre tantas pessoas cá de fora e as pessoas lá de dentro: todos caminham sonâmbulos pela vida]

cheguei ao trabalho e sorri, novamente. cada gesto, cada pessoa que vi, cada tarefa. desta vez, a minha rotina foi alterada. fiz tudo o que tinha de fazer, claro, porque o trabalho tem que ser feito. mas não daquela forma automática de se fazer, de se falar. de se Ser. fiz tudo como se fosse a primeira vez. e tudo teve um sabor diferente... como se me sentisse um pouco mais acordada. mais viva.

[a rotina - necessária, eu sei - não precisa de ser rotineira... tudo o que fazemos pode ser feito com o entusiasmo de uma criança: para elas, tudo são experiências novas. ver, saborear, sentir e o mais importante, amar tudo pela primeira vez]

cheguei a casa há pouco. o jantar já está pronto. fiz uma receita nova, que trouxe do pingo doce: postas de garoupa com azeite de coentros. cheira bem.

vamos jantar...

[desde que conheci a mundo do pavilhão 29, senti que tinha uma missão muito importante: jamais permitir-me entrar nele. sei que eu sou uma privilegiada. tenho a noção da vida... então, sinto-me na obrigação de não a deixar fugir de mim. só eu tenho esse poder. só eu posso decidir qual o melhor caminho. e só eu posso dar o primeiro passo. o sol brilha sempre: mesmo que as nuvens não nos deixem senti-lo na nossa pele, o sol está lá... cabe a mim [a ti] fazer de tudo para que o sol jamais deixe de iluminar a vida]

quinta-feira, 10 de junho de 2010

{partimos. vamos. somos.}


pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
chegamos? não chegamos?
haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos.
basta a fé no que temos.
basta a esperança naquilo que talvez não teremos.
basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos e ao que é do dia a dia.
chegamos? não chegamos?
- partimos. vamos. somos.
Sebastião da Gama

segunda-feira, 7 de junho de 2010

{caminhos errantes}

ontem, eu e a minha mãe fomos visitar o meu pai. o médico deu-lhe autorização para sair do pavilhão, passear pelos jardins. mas, fomos muito para além dos jardins do hospital. saímos pelo portão e fomos passear, à toa. andámos, andámos.... e o meu pai parecia um passarinho, a quem tinham devolvido as asas e queria mais. até que tivemos de voltar.





ao pavilhão 29.




nem todos têm a sorte do meu pai. a grande maioria é considerada perigosa, de risco. ficam confinados àquelas paredes, completamente alheios de tudo o que se passa cá fora.

há esta senhora, uns sessenta e muitos anos: passeia-se pelos corredores com o olhar perdido. pára em frente de todas as portas. desenha qualquer coisa com as mãos, no vazio... e volta ao seu caminho errante. sempre a caminhar... sem desvio qualquer ou, muito menos, um amanhã. caminha por caminhar. sempre o mesmo itinerário. os corredores do pavilhão 29.

chegou a hora da despedida. ficas bem? fico... e eis que salta uma menina [linda] e abraça-me como se me conhecesse há anos. a menina do gorro tem 18 anos e uma história terrível demais para ser contada aqui. mas tem, também, um sorriso que enche uma sala. não sei até que ponto ela conseguirá voltar ao caminho... mas rezo para que isso aconteça. ela é tão novinha... e tão bonita. não sou nada, disse-me. és, sim.

à noite, deitei-me. e chorei.

por causa da senhora do caminho errante, por causa da menina do gorro e por causa de todos os outros caminhantes perdidos pelos corredores do pavilhão 29. mas, também, chorei porque senti medo. muito medo.

[dava tudo para não deixar o meu pai ali, trancado. e tenho medo. que também ele perca o rumo da sua viagem]

domingo, 6 de junho de 2010

{rewind}


lembro-me de estar deitada a dormir. a noite ia alta. foste até ao meu quarto e acordaste-me. olhei para ti, com os olhos meio enevoados do sono.

vi o pai natal, lá fora: mandou-me dar-te isto, disseste-me.

um coelho de peluche gigante! saltei da cama e abracei o meu coelho gigante, muito maior do que eu, que era tão pequenina, ainda. e enchi-te de beijos. deitei-me com o meu coelho gigante que mal cabia na minha cama. porque é que o pai natal me deu este coelho tão grande? ainda falta mesmo muito tempo para o natal, a mãe disse-me que ainda é verão e o pai natal só vem no inverno... olhaste para mim e sorriste.

vá, agora dorme...

e eu dormi... com um sorriso do tamanho do meu coelho gigante.

lembras-te?

[vê se melhoras rápido... fazes falta...]

terça-feira, 1 de junho de 2010

{na bagagem}


afinal, o caminho não era difícil... a minha mochila é que estava demasiado cheia.

pessoas. experiências. silêncios. confidências. sentimentos. desilusões. pensamentos. ideias. opiniões. planos. emoções. sucessos. derrotas. alegrias. tristezas. perdas. ganhos. lágrimas. saudade...

e eis que a minha bagagem tomou conta da minha vida. porque a mochila estava demasiado pesada, caminhar tornara-se árduo...

[auto-sabotagem]

esvaziar a mochila. compreender. perdoar. esquecer. aceitar. chorar. sorrir. acreditar. amar[me].

e... de mochila quase vazia - há sempre um lugar para as boas recordações [pessoas, sorrisos, alegrias] porque, essas, não pesam nas costas - voltar à estrada...

que o caminho faz-se caminhado.


recuperado para a fábrica de letras, sob o tema vazio