sábado, 5 de novembro de 2011

{l.u.p.a*}

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não possuo licença de uso e porte de arma. assim que completei dezoito anos, os meus pais quiseram oferecer-me a dita. agradeci, mas recusei. sentia-me demasiado imatura para tal. ainda hoje, sinto. imatura[idade cronológica: 38; idade real: 16], demasiado nervosa[como um pincher irritante que se assusta com tudo e que ataca todos], completamente distraída[agora estou aqui, daqui a segundos posso estar aí. ou na lua. ou num outro local qualquer]. por estas razões todas e outras tantas, sei que jamais irei ter licença de uso e porte de arma. e está muito bem assim. já existem demasiados potenciais assassínos soltos por aí...

na quinta-feira chovia torrencialmente. a chuva apanhou-me desprevenida. o meu gaiato estava protegido da intempérie[o carrinho tem uma espécie de capa de plástico que deixa ver tudo, para delírio do puto]. eu, para não variar muito, estava sem chapéu-de-chuva[ é que eu tenho esta relação ódio\ódio com o dito].

o caminho que costuma ser feito em trinta minutos, foi feito em metade. corria como uma alucinada, porque chovia como há muito eu não via chover. sempre que eu parava para descansar, debaixo de uma arcada, o meu gaiato gritava, mais corrida, nana, mais corrida. e eu corria.

até chegar à passadeira. são três vias. a primeira via foi fácil. não passava nenhum carro. as duas seguintes, nem por isso. e ali estávamos os dois, no meio da estrada, debaixo de chuva intensa e de um vento que me obrigava a agarrar o carrinho com todo o meu peso, para que este não voasse também[e, o facto de ser quase anã, com os meus 148cm, em nada ajudava]. um carro, dois carros, três[!!!] carros. passaram por nós numa velocidade que nos fazia balançar ainda mais. um quarto carro que, tal como os dois anteriores, tinha tempo mais do que suficiente para travar, acelerou ao máximo e passou por nós como se não estivesse ali ninguém[já aqui mencionei o facto de estarmos os dois, eu e um bebé, no meio da estrada, debaixo de um temporal?].

quando vi que o quinto carro[sim! foram cinco carros!] se preparava para fazer o mesmo, agarrei o carrinho com o braço contra o meu corpo[por causa da tal ventania que me obrigava a agarrar o carrinho com todo o meu peso, para que este não voasse também], e comecei a esbravejar, a acenar violentamente com o braço livre. e o carro depois de acelerar, começou a abrandar e parou. mesmo assim, uma paragem brusca. mesmo em cima de mim e do meu menino.

nesse final de tarde, uma senhora que atravessava nessa mesma passadeira, foi atropelada. o carro só conseguiu parar a alguns metros depois da passadeira e a senhora, já com alguma idade, foi projectada vários metros. escorria sangue da cabeça. não se mexia. 

cerca de uma hora depois, quando estava a chegar a casa, um aparato em frente do meu prédio, na passadeira: uma ambulância sbv e uma vmer. sim, a vmer é que assusta... lembrei-me, de imediato, do meu pai e do meu marido. corri. ouvi um dos tripulantes da ambulância: o estado é grave. cheguei a casa e chamei o toni enquanto telefonava para a minha mãe, para saber se sabia do meu pai. estava tudo bem. pelo menos, com os meus. mas não estava nada bem para a outra senhora e para aquele homem... 

a minha vizinha contou-me que a rapariga não conseguira travar a tempo e tinha atropelado um senhor de idade avançada. o carro que vinha atrás, também não conseguira travar e bateu no carro da rapariga, atropelando uma segunda vez, o pobre homem.

a chuva continuava a cair, desmesuradamente... e os condutores continuavam a acelerar, impiedosamente. verdadeiros homicidas, autênticos psicopatas...

não. não tenho licença de uso e porte de arma e sei que jamais irei possuir licença de uso e porte de arma. e está muito bem assim. já existem demasiados potenciais assassínos soltos por aí... porque é demasiado fácil ter um papel que nos "habilita" a manobrar a arma. basta decorar meia dúzia de sinais, outras tantas regras e estar calmo no dia do exame de condução. et voilá...

deveriam existir algo mais. não sei o quê... testes psicotécnicos? sei lá... só sei que o que há é muito pouco. deveriam analisar à lupa cada potencial condutor. porque acredito que existem muitos loucos soltos, por aí. armados. com vontade de matar. e, depois... basta culpar o tempo, o piso escorregadio, o velhote que não tomou as devidas precauções antes de atravessar a estrada... 

[*licença de uso e porte de arma]

6 comentários:

Fê-blue bird disse...

Minha amiga, ser peão actualmente é uma "manobra" bem perigosa :(
Ando tudo alucinado, com pressa, e claro também com vontade de matar :(
Também acho que estes "condutores" são uns assassinos.
beijinhos querida e bom fim de semana

60 Sinais disse...

Infelizmente, por muitos testes que houvesse e provas e tudo o mais...algo iria sempre correr mal. Os verdadeiros psicoticos iriam passar a esses exames e pessoas que ficam genuinamente nervosas iriam chumbar. Infelizmente as coisas não são tão certas e lineares como deveriam por vezes.
Um bom fim de semana =)

Briseis disse...

Não há teste psicotécnico, lupa, máquina da verdade ou bola de cristal que possa prever estas coisas... As pessoas é que precisam ter consciência mas não se preocupam nada com isso. Pena que seja preciso morrer alguém e traumatizar o condutor desgovernado para que algumas pessoas (poucas) pensem um pouco no assunto...

cc disse...

É assustador o número de mortes na estrada e mais assutador o número de morets na passadeira. Não estamos seguros em lado nenhum.

Zé Carlos disse...

Pelo titulo do post, imaginei que fosse outra coisa, igualmente grave: há demasiadas armas espalhadas, demasiadas pessoas com armas em casa.
Mas a questão das passadeiras, dos peões e dos carros que não abrandam sequer, é de facto igualmente terrível. Apercebi-me anda mais do desrespeito pelos peões, quando recentemente voltei a andar de bicicleta com mais frequência, é incrível as tangentes que os carros fazem, o desrespeito por parte de alguns automobilistas, pela integridade de quem também anda na estrada é gritante, pouco importa se vai na berma, se vai com material reflector o que seja, tenho a teoria de que alguns, até sentem um certo gozo em "apertar" o ciclista...
A situação das passdeiras é outra historia, há sempre quem acelere para passar, há sempre quem nem se aperceba...
Eu acho que passei a ser melhor condutor, quando voltei a andar de bicicleta na estrada.
Boa semana

Brown Eyes disse...

Há muita gente que não nasceu para conduzir, já dizia a minha instrutora. É verdade. Conduzem como se fossem os únicos na estrada sem contar com percalços. Não sei como ainda não fui atropelada nas passadeiras. Melhor sei, porque vou a atravessar e a olhar para os carros e se não param paro eu. Nas longas viagens que faço posso observar a prepotência das pessoas, até com um carro na mão.