quinta-feira, 17 de junho de 2010

{os perigos da web, o pavilhão 29 e eu}


[o meu pai já teve alta e já está em casa... ]

enquanto esperava pelo meu pai, folheei uma revista que ali estava. susana santos escreve sobre a internet, sobre o perigo que pode estar escondido nos blogs, no twitter e nas redes sociais como o facebook. defende que, "muitas vezes, desconectar é a melhor opção".

segundo a socióloga maria de lurdes fonseca, do instituto superior de ciências sociais, "a internet estimula o narcisismo porque gera nos utilizadores uma necessidade constante de criar interesse sobre eles próprios. como se, de repente, todas as pessoas fossem muito talentosas, permanentemente informadas e superiormente inteligentes".

esta socióloga adverte para o perigo da desilusão. porque os amigos virtuais são meros números, que, na realidade não existem. e, se por acaso existir um contacto fora da web, "conhecer a pessoa cara-a-cara pode ser um choque".

eu já tive muitos amigos... não consigo precisar quantos, mas eram mesmo muitos. todos os dias era visitada, na óptica onde trabalhava, por dois, três amigos. havia jantares, saídas, viagens. posso dizer que eu era socialmente bastante activa.

quando fiquei doente, os amigos foram desaparecendo. das muitas dezenas de amigos ficaram três: a minha melhor amiga [há mais de 25 anos], o marido e o meu amiguinho de berço [eu tinha um ano quando ele nasceu e crescemos juntos]. todos os outros...

estava confinada a uma cama, com dores excruciantes. precisava de ajuda de terceiros para tudo.[eu caía vertiginosamente num poço que parecia não ter fundo, tentava agarrar-ma às paredes, mão não conseguia...]. a família também ficou reduzida. os meus pais, a minha irmã e uma amiga da minha irmã [que hoje é a minha irmã do coração]... e pouco [muito pouco mesmo] mais.

cheguei a ouvir de alguns elementos da família, autênticas barbaridades como "a trabalhar, isso passa".

quando me apercebi que os meus amigos, quase toda a minha família e o meu irmão [ele tratava-me por mana, éramos "unha e carne"], simplesmente, deixaram de existir, desisti de tentar agarrar-me. deixei-me cair... quando mais depressa caísse, mais depressa chegaria ao fundo. escuro, sem vida [porque eu quis morrer, porque doía demasiado. a doença e solidão]. estive tão perto do pavilhão 29... tão, assustadoramente, perto.

até que a minha irmã me apresentou a internet, nos finais de 2006. não sabia nada de nada. gmail, hotmail, blog... palavras que me eram totalmente estranhas, começaram a fazer parte do meu quotidiano, sempre que a doença dava uma trégua.

conheci o meu marido num fórum. o nosso namoro começou numa mensagem no gmail. e fui ter com ele [coisa que nunca, jamais se deve fazer... eu fiz porque tinha a minha melhor amiga do meu lado]. e quando fiquei cara-a-cara com ele, não foi um choque. foi ele que me estendeu a mão, foi ele que me devolveu a vontade de lutar, a vontade de me agarrar à parede.

foi na internet que descobri o tratamento da minha doença, conhecida por crónica [logo, incurável], incapacitante e degenerativa. os médicos de portugal não conhecem [ou não querem conhecer] uma saída diferente para a doença, que não seja a resignação.

também encontrei uma amiga. uma amiga na doença, uma amiga na procura da cura. uma amiga na cura. uma amiga que não consegue estar mais que algumas horas sem saber de mim. que me apoia incondicionalmente. meu porto de abrigo, muitas vezes, quando me se sentia perdida, no caminho. uma amiga virtual que se tornou real e, quando fiquei cara-a-cara com ela, não foi um choque.

hoje, à minha lista de amigos reais [poucos, mas verdadeiros], juntaram-se alguns virtuais. já começam a ser bastantes. os meus amigos virtuais são\estão mais presentes que os outros alguma vez estiveram. os tais reais que desapareceram assim que se aperceberam que eu já não lhes podia dar aquilo que eles queriam.

não... desconectar não é a melhor opção. como é que eu poderia desconectar-me de algo que me devolveu a vida? estimula o narcisismo? não faz mal... aliás, só me faz é bem.

[a internet pode ser perigosa, sim... tal como tudo na vida. temos que ser inteligentes e saber consumir moderadamente...]

aproveito por agradecer aos meus amigos virtuais todo o apoio que me têm dado. principalmente, nestas últimas semanas. cada mensagem foi preciosa, como gotas de orvalho em lábios ressequidos. obrigada pelo vosso apoio, pelo vosso carinho, pelas palavras amigas. eu não vos conheço, na vida real, mas têm sido todos muito importantes nesta etapa da minha vida...

e aos meus amigos reais... não são necessárias palavras, não é?

19 comentários:

Fê-blue bird disse...

Minha querida:
Entre nós também não são necessárias mais palavras.
Só um abraço muito apertado e um beijinho comovido.
Subscrevo tudo o que escreveu.

Leolpoldo disse...

Reais, virtuais, o que importa é a amizade verdadeira. Fico contente com as melhoras do pai. Aquele abraço.

Rita disse...

Pela parte que me toca não precisas de agradecer. Também sei que posso contar sempre contigo que é o que tem acontecido nestes últimos anos. Ainda bem que o teu pai já está em casa :)

xoxo aos dois :)

Theresa disse...

Cada vez se levantam mais vozes contra a internet. Primeiro foram os médicos que reclamavam que os seus doentes queriam saber mais porque leram na net, não sei quê sobre a sua doença. Agora são os sociólogos que parecem muito aflitos com as redes sociais e por aí. Na minha modesta opinião, não passam de velhos do restelo. Um beijos a si, amiga e ao seu pai.

ricardo disse...

O que eles têm é medo que o "povo" saiba tanto ou mais que eles. A tal socióloga não diz e passo a citar: "como se, de repente, todas as pessoas fossem muito talentosas, permanentemente informadas e superiormente inteligentes"?

cc disse...

Até parece que só eles que têm canudos é que podem opinar sem correrem o risco de serem defraudos. Que idiotas. Aposto que esta socióloga já deve ter caído nas malhas da perigosa internet. Uhhh. que medo!!!!

dandelion disse...

E eu também gosto muito de ti, linda. Bjos ao pai e ao resto da tua família. E para ti também, claro!

pink poison disse...

Que bom! O teu pai teve alta...
Os amigos virtuais, por vezes, são mesmo um conforto... Mas tens toda a razão quanto ao facto de termos que ser inteligentes na forma como usamos a net.
Um beijo na alma

Joana disse...

A vida ensina que nem todos os amigos são amigos. Dizem que é no hospital e na prisão que se descobre quem são os verdadeiros amigos. É pena que para isso, tenhamos que estar presos ou doentes. Fico contente por teres descoberto, ainda que da pior maneira, quem são os teus amigos, reais ou virtuais. Achas que podes juntar-me à tua lista? um beijinho virtual!

caminhante disse...

fê, amiga querida, irmã amada... palavras para quê?

ritinha, minha linda, sim. estou e estarei sempre ao teu lado... xoxo para ti tb :)

leopoldo, está tudo dito :) um abraço para si também.

Theresa, eles falam, falam, falam... e não dizem nada. fiquemos com a voz do nosso coração...

ricardo, esquece lá isso lol

catarina, a socióloga lá teve as suas razões para dizer o que disse. há estudos feitos e, certamente, acontecem coisas que não deveriam acontecer. a alienação de que ela fala existe. há pessoas que vivem dentro de um quarto, em frente ao pc... e pouco mais fazem da vida. Como se de um vício se tratasse.

dandelion, me too ^_^

pink poison, é como dizes: há que usar a web com consciência. e tudo corre pelo melhor... um beijinho para ti também :)

joana, acredito que tudo pelo que passamos tem uma razão de ser. como se de uma lição se tratasse. não foi fácil, mas necessário, o caminho que percorri. aprendi muito e sei que tenho muito mais para aprender. quanto aos amigos, de que servem dezenas de amigos assim assim, ao lado de uma mão cheia de amigos sim senhor?

um abraçinho cheio de luz, como o sol que brilha lá fora para todos :)

Anónimo disse...

continue caminhando com esta força e belza interior e nós (reais ou virtuais) estaremos torcendo para que tudo corra bem.Eliete

Rogério Pereira disse...

Conte sempre comigo
e alguma inspiração
não custa nada
uma palavra de amigo
uma flor, poema ou canção
(mesmo que avinagrada)

Miguel disse...

Estarei sempre contigo, entre um voo e outro, como tu me costumas dizer.

Anónimo disse...

Olá, Su! Adorei o teu blog e tudo o que tens escrito. Continuas com essa tua maneira de escrever que eu adoro. Tens que criar um blog para mim pá! Boa? kiss :)

Amélia disse...

Que saudades amiga! Cheguei agora :) e já te vim ver lol não sabia do teu pai ;( mas ele já está melhor, não é? Temos que por a conversa em dia que eu tenho muito para te contar :) um beijinho, fofa!

A propósito, adorei o que escreveste. Escreves com alma :)

Olga disse...

Concordo com tudo o que escreves-te. Também me apoei bastante nos amigos virtuais e foi com eles que ri e chorei muitas vezes. Foi também aqui que encontrei palávras de força e bons conselhos. Beijinhos.

Brown Eyes disse...

Suzana concordo com tudo o que disseste, o que escreveste traduz a vida real e a vida virtual. Uma palavrinha de um amigo virtual pode, sem dúvida fazer milagres. Existem, estão connosco e acompanham-nos no nosso dia a dia. Conheci aqui amigos de quem tive muitas saudades nestes dois meses de ausência. Quantas vezes me perguntei se eles estavam bem? Muitas. Há por aqui pessoas maravilhosas que fazem a diferença na nossa vida. Espero poder acompanha-los como eles merecem. Beijinho grande para ti, cheio de saudades.

Insana disse...

eu tenho
duas dezenhas de conhecidos destes nem uma dezena chegara a ser tratado por colega.

Amigo meu é aquele me me tem na amiade do amanha.

bjs
Insana

Madalena disse...

Eu li esse artigo e resolvi fazer o oposto ;) conectei-me.