sábado, 4 de dezembro de 2010

{mesmo calada a boca, resta o peito*}

fiz uma pausa na minha caminhada. se a vida me ensinou alguma coisa, foi a perceber quando parar[sossegar o corpo, sossegar a mente. escutar(me)]. foi o que eu fiz no fim-de-semana passado[ com a ajuda preciosa de uma gripe que, a propósito, não me larga... nem mesmo recorrendo ao leitinho com aguardente, mel de rosmaninho e açúcar mascavado].

sentia-me perdida, sem saber porquê... hoje, sei.

é só saudade...


sempre fui bastante sociável. durante os meus tempos de estudante, confesso, não saía do quarto[tal verdadeira marrona], mas quando comecei a trabalhar, nunca estava sozinha.

depois do esgotamento, que me levou a desistir da minha carreira na óptica [não só, mas também], na primeira oportunidade, inscrevi-me nas aulas de yôga e fui trabalhar numa empresa como recepcionista. durante o dia, estava com estes meus novos colegas e à noite, estava com o meu grupo de yôga. fiz muitos e bons amigos, tanto na empresa como na unidade de yôga.

o problema é que a espondilite começou a agravar de uma forma anormal, pelo menos, para o sexo feminino[é mais habitual acontecer em homens]. e depressa me vi obrigada a deixar tanto o trabalho como o yôga.

para complicar mais a situação, vi membros da família e amigos a afastarem-se, sem uma palavra... ou um porquê. aos poucos, fui-me tornando anti-social. revoltada com tudo[a dor física\psíquica leva-nos a fazer coisas realmente muito estúpidas], destruí o meu telemóvel e não abria a porta a ninguém. só houve uma pessoa que nunca desistiu de mim... se não abrires a porta, não tiro o dedo da campainha e tu sabes que não és mais teimosa do que eu. a paula, minha amiga de infância...

sem me aperceber, por meia dúzia de "supostos" amigos, afastei-me dos verdadeiros.

e só me dei conta disto, ao longo destas últimas semanas...


e é disto.
a saudade.

de entrar à socapa no centro de congressos de aveiro para assistir a concertos sem pagar. de estar a noite inteira, com a casa cheia, rodeada de petiscos[que eu cá tenho uma mãe que me ensinou a fazer coisinhas muito apetitosas]. de passear, à toa, sem horários ou destino. de subir a serra de sintra a pé, sempre por caminhos desconhecidos, atravessando propriedades privadas, fugindo de cães menos simpáticos. de comer um robalo assado naquele restaurante à beira-mar, na ericeira. de vaguear pelas praias de espinho, em dias de nevoeiro. dos retiros por esse portugal fora, com o meu grupo de yôga. de beber um chá de camomila numa esplanada qualquer, no cais da ribeira. dos piqueniques que fazíamos nos locais proibidos da boca do inferno. de entrar no mar de lagos, completamente vestidos, em pleno dezembro. de passear no parque da paz, em almada, depois de um pequeno-almoço recheado de frutos silvestres.

[...]


saudade. sim.

de estar com os meus amigos.

de voltar a ser quem eu sou.


*chico buarque

para a fábrica de letras, tema de dezembro

23 comentários:

mafaldinha disse...

"leitinho com aguardente"??? Tratas-te bem, sim senhora!!!

Catsone disse...

Caríssima, tocante este teu depoimento. Não te conhecia assim triste. Pelo que esta nossa face virtual mostra, aparentas ser uma pessoa "prá frentex" e escondes bem estas amarguras.
À Paula os meus parabéns por "salvar-te". Também tive algumas "Paulas" que me resgataram do fundo de alguns poços nos quais me enfiei (e eram profundos, os sacanas).

Bj e bom fim-de-semana.

caminhante disse...

mafaldinha, receita do amigo rogério. e ele sabe destas coisas!

catsone, eu sou essa pessoa "prá frentex"... às, vezes, porém, fico cansada e a tristeza invade o meu caminho. mas, é por pouco tempo. é sempre por muito pouco tempo. porque não há tempo[nesta nossa viagem] para desperdiçar com tristezas... a vida tem que ser vivida hoje. o que aconteceu, não se pode mudar, mas podemos sempre [re]começar. é isto, não é?

abraçinho...

Lady in high heels disse...

Estou com a Mafaldinha:"leitinho com aguardente"? E não tinhas nada melhor para beber que um chá de camomila? Em plena Ribeira??? És esquisita...

lol, just kidding :)

Ritinha disse...

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.
O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.
E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.
Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.
Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Fernando Pessoa. Sei que gostas e é mais ou menos isto que sentes, não é? Isso passa, tua sabes que passa :)

Um beijinho!

Amélia disse...

Isto de estares sempre a transgredir as leis não é nada bonito! E ainda dizes que sentes saudades??? Ai ai ai!!!

:)

acácia rubra disse...

Saudade de nós é um tema que me agrada.

Grave é quando nos perdemos de nós e não nos reencontramos nunca mais.

Beijo

caminhante disse...

lady lisa, chá de camomila, sim. e ainda hoje, quando sinto o seu aroma, me lembro daquelas noites passadas juntas àquele rio lindo...

ritinha, obrigada. e a nuvem já flutua calma.

mélinha, lol. e tu não sabes da missa, metade :)

acácia, linda flor... isso jamais poderá acontecer.

um beijinho a todos...

Tite disse...

Quem escreve assim, mesmo quando está só, fica sempre acompanhada... de si e de um irrequieto passado, parece-me, de juventude vivida intensamente.

Um conselho. Não feches a porta a quem te ama.

Beijosssss

Johnny disse...

Ter saudades de algo é uma forma de sabermos o que gostamos. Sabendo isso, podemos tentar reproduzir esses momentos, ainda que não da mesma, de qualquer outra forma. O mais fácil tu já sabes: sabes do que é que tens saudades.

Olha, neve a cair!

Fê-blue bird disse...

Sabe querida amiga que também me sinto assim.
Acho que a EA apesar de já estar aceite e ultrapassada, nos marcou, nos isolou, nos modificou, para melhor nas maioria das coisas,mas tirou-nos também outras.
Eu tenho saudades de um tempo que acho ainda possível recuperar, afinal tomar um pequeno-almoço recheado de frutos silvestres está à distância de uma passagem de comboio :)

Beijinhos amiga linda
Até de repente!

dandelion disse...

É como a Fê diz e muito bem. Não mata mas... é como se ficássemos "danificadas". Mas se ultrapassámos a doença também conseguiremos ultrapassar a cura :)

Um buijinho grande!

Brown Eyes disse...

Depois de ler isto só me apetece mandar-te um beijinho.

Insana disse...

Estou precisando parar respirar e pensar como seguir...

bjs
Insana

Brown Eyes disse...

Vim dar-te outro beijinho e porquê? Passei no cantinho da Fê e as tuas palavras, a maneira como amas e lutas pelas pessoas merece todo o meu reconhecimento. Sou assim, tenho que dizer o que penso e, a ti, só te posso dar elogios. És de uma pureza e de uma força inimaginável e tens sempre as palavras certas para dizer. Tu e ela são pessoas que muitos precisavam conhecer, afinal de um lado temos o amor e a ternura e do outro a crença, a força e o acreditar envolto em amor pelo próximo. Se todos fossem como vocês vivíamos em paz, a paz que tanta falta nos faz.Beijinhos

Catee & Carlee disse...

Gostei

Pedro disse...

Caminhante, espero que te encontres mais animada! Um abraço!

Madalena disse...

Gosto muito da maneira como escreves sobre a tua caminhada. Serve de exemplo para muita gente e principalmente para mim.

Por falar em saudades: e aquelas noites de quarta, noites de Sat Chakra, em que levávamos um fruto e uma flor, apresentávamos as nossas coreografias, comíamos aquelas comidinhas boas, como tu lhes chamavas lol e bebíamos o delicioso tchai... também estou com saudades. Que tal fazermos um Sat Chakra privado? lol

Obrigada por seres uma boa amiga :)

Filipa S. disse...

Olá, caminhante! Chamo-me Filipa e também tenho Espondilite Anquilosante. Pelo que percebo dos seus posts já conseguiu ultrapassar a doença. Estou certa? Posso perguntar como conseguiu? Estou um bocado aflita com a minha situação porque já nem posso trabalhar. Eu revejo-me muito nas suas palavras e espero que me possa dar umas luzes. Obrigada!

cc disse...

"sem me aperceber, por meia dúzia de "supostos" amigos, afastei-me dos verdadeiros. e só me dei conta disto, ao longo destas últimas semanas..."

E o que é que aconteceu nestas últimas semanas para acontecer isto?

anita disse...

Minha querida amiga virtual espero que já estejas bem melhor! Um beijinho grande!

Mané disse...

Que complicada deve ter sido a tua vida! E que volta conseguiste dar a isso tudo!!! Parab´nes!

Natália Augusto disse...

Os verdadeiros amigos estão sempre presentes nos momentos mais difíceis ainda que nós sejamos intratáveis.
Não é fácil partilhar mágoas, angústias, a dor. Apreciei a coragem.