sábado, 11 de junho de 2011

{falling... falling... }


as últimas semanas não têm sido fáceis para ninguém. toda a família, alerta. não se dorme. o toque do telefone[que nos assusta, súbita e violentamente] não nos dá tréguas. sente-se que a neblina escura e fria do medo nos envolve, estreita-se e nos constringe.

como é que deixou a sua mãe chegar a este ponto?

a pergunta não me foi feita a mim. mas, senti como se tivesse sido. "E" está muito mal, muito mal, mesmo. porém, a pergunta não deveria ter sido dirigida ao filho[que está desesperado, que precisa que lhe digam que vai tudo correr bem, que em breve terá de volta a sua mãe]. a pergunta deve ser feita ao médico de família que, durante vários meses[repito, vários meses] disse a "E", que não tinha nada, que era tudo da "sua cabeça"; que disse "que não se interna ninguém, enquanto não há um diagnóstico"...

[eu acreditava que os hospitais serviam, também, para diagnosticar. afinal, não. só se interna alguém, quando há um diagnóstico. vivendo e aprendendo...]


"E" emagrecia a cada dia que passava. o sopro da vida, também ele, ficava cada vez mais ténue. exames, consultas, urgências, transfusões de sangue, soro... muito soro. cada vez mais fraca, mais magra. tinha de ser carregada ao colo porque não se mantinha de pé. as forças, há muito que tinham desaparecido[àquela mulher que jamais faltou ao trabalho, que fora sempre o pilar do seu lar... forte como sol que queimava a sua pele clara].

nada, contudo. a "E" não tinha nada.

os amigos, desesperados, conseguiram que um outro médico a consultasse[mais um, entre tantos: o médico de família, vários médicos do hospital de alijó, do centro hospitalar de vila real, de clínicas privadas e urgências dos dois hospitais já mencionados]. este médico, psiquiatra, perguntou-lhe se queria ser internada. respondeu que sim. fustigada por dores abdominais, o corpo repleto de edemas, derrotada pela fadiga e acometida de uma grande debilidade. e magra[tão magra...]. sim. ela queria muito ser internada. e foi.

na ala psiquiátrica.
porque a "E" não tinha nada.

não resistiu mais que dois dias. e, na segunda entrada nas urgências, após internamento na ala psiquiátrica[sim, foi por duas vezes, admitida nas urgências do centro hospitalar de vila real depois de ser internada na ala psiquiátrica!!! e só na segunda vez], foi, finalmente, diagnosticada.

uma peritonite resultante de uma oclusão intestinal devido a uma neoplasia de 10cm.

simples, não?

afinal, não era nada...

como é que deixou a sua mãe chegar a este ponto?

[em estado crítico, coma induzido, ferida cirúrgica aberta. febre muito elevada. infecção que não cede, prognóstico muito reservado]

a pergunta está mal formulada:

como é que dezenas de médicos, durante mais de três meses, chegaram a minha tia, a irmã da minha mãe, chegar a este ponto???

11 comentários:

acácia rubra disse...

REVOLTANTE. CHOCADA.

Que tudo melhore. É preciso coragem.

Beijo

Eva Gonçalves disse...

Uma tristeza isso... olha nem sei que te diga... reclamem, chamem a comunicação social, denunciem, porque realmente alguém deve ser responsabilizado neste país de médicos corporativistas e impunes demasiadas vezes. E as melhoras para a tua Tia. Um beijinho

Rogério Pereira disse...

Não comento. Apenas lhe faço um aceno solidário...

:))

Ritinha disse...

Sem comentários. Um beijinho.

Fê-blue bird disse...

Amiga:
Quem anda pelos hospitais públicos sabe porquê!
Incompetência, desleixo, falta de ética e profissionalismo e principalidade uma grande falta de humanidade.
O meu pai esteve na quarta-feira passada mais de 10h nas urgências, e saiu pior do que entrou.
Sem diagnóstico, só não esteve abandonado porque eu e a minha mãe estivemos sempre alerta e a chamar a atenção dos médicos e enfermeiros. Mas assisti a muito abandono e negligência, uma tristeza o estado a que a saúde em Portugal chegou.
Mas bem sabemos que este estado de coisas interessa, pois no privado e também tive essas experiência com a minha sogra, tudo corre sobre rodas.
Desejo as melhoras da sua tia como desejo para o meu pai.
Muita coragem amiga e força, muita força!

Beijinhos e abraços apertados

Atena disse...

Temo que este vergonhoso caso, não se cinja a apenas 1... E nunca há consequencias! Revolta-me, e assusta-me! Que tudo corra o melhor possivel - "A Deus nada é impossivel"... Abraço e força

Lisa disse...

Estou sem palavras. Um beijinho muito grande.

anita disse...

Neste país, a incompetência prolifera sã e sem consequências.

Catsone disse...

Vc sabe que isto a mim me revolta. A minha revolta é diferente daquela dos comentários anteriores. Tem a ver com alguma prática que faz com que as pessoas ponham todos os profissionais no mesmo saco. Fico triste por saber que um colega meu (MF) pôde deixar passar uma situação dessas (apesar de correr oeisco de me basear numa perspectiva apenas).
Agora, espero que lhe dêem o que ninguém no mundo ainda patenteou, envolveu num comprimido e pos a vender numa farmácia: carinho e afecto.
Que tudo corra pelo melhor.

caminhante disse...

a todos, um beijinho terno pelas vossas palavras de força.

eu não falo contra a comunidade médica. falo contra aqueles profissionais que não honram a bata que vestem nem o juramento que fizeram. falo contra aqueles que se entregam à rotina e não olham para o paciente como um ser pensante que sofre e tem o direito a respostas.

felizmente, nem todos os médicos são assim. felizmente, o "saco" não serve para todos os profissionais de saúde. eu conheço muitos médicos, enfermeiros e técnicos que se preocupam e procuram respostas muito para lá do habitual, da rotina. preocupam-se, dão "carinho e afecto".

sim, esses profissionais existem. felizmente, para todos nós.

a minha mãe, por exemplo. se não tivesse sido o médico dela, há muitos anos que ela não estaria mais connosco. médico ginecologista, do nosso centro de saúde[que me ajudou a nascer].

eu já aqui falei dos meus anjos-da-guarda. médicos que se preocuparam, que me trataram. que acarinharam.

eu não estou contra a comunidade médica. estou contra todos aqueles que deveriam ter tratado da minha tia e não o fizeram. porque ela sofreu e ainda sofre. porque os meus primos definham a cada dia que passa. porque o meu tio só chora e, por algumas vezes, já deu entrada no serviço de urgências[onde encontrou uma "sra. dra. porreira"]. porque a minha mãe sente-se perdida e o meu pai, sem chão.

a minha tia é a irmã da minha mãe. casada com o irmão do meu pai. estes meus tios são um pouco meus pais. os meus primos são como meus irmãos.

todos estamos muito aflitos. vivemos um dia de cada vez.

eu não estou contra a comunidade médica. porque há médicos bons. estou só contra os médicos maus.

há bons e maus profissionais em todo o lado. é verdade. mas, nestas profissões... não podem existir maus profissionais. porque não máquinas que avariam. são seres vivos que podem deixar do ser.

um beijinho, mais uma vez... e obrigada...

dandelion disse...

Espero que já esteja tudo bem :)