quinta-feira, 25 de novembro de 2010

{baby steps}




não existe um caminho para a felicidade.
a felicidade é o caminho...

mahatma gandhi.

sábado, 20 de novembro de 2010

{skizofrénia}

no quarto, o armário estava dividido em dois. de um lado, roupa formal: fatos de cores neutras, camisas, sapatos de salto alto; do outro lado, cor... muita cor: lenços, vestidos fluidos, calças largas, saias compridas e rodadas, tops de atar ao pescoço e chinelos.

acordar uma ou outra, para mim, era algo tão natural como beber água ou comer. era assim, desde muito jovem, sem nunca me questionar porquê... e até a minha família[a mais chegada], os meus amigos ou a minha gata conseguiam distinguir quando acordava uma ou quando acordava outra, só de olharem para mim. e todos reagiam normalmente a esta espécie de alienação mental[totalmente absurda, diga-se...].

não consigo explicar porquê, só sei que durante estes últimos anos, tudo mudou[felizmente, porque acho que não teria muita paciência para tanta insensatez]. talvez a doença, a incapacidade de ser uma ou outra... sim, deve ter sido isso. hoje, não uso fatos nem tão pouco, ando de fita no cabelo. não sou uma nem outra.

contudo, daquela loucura sobreviveu uma miscelânea das duas.
eu.

tento viver um dia de cada vez[passo a passo] sempre com um sorriso[porque o sorriso é essencial - para mim, para ti... para ele]. agradeço, ao deitar, todo o meu dia: as coisas boas e as menos boas[porque acredito que, até das situações menos agradáveis, se pode tirar uma lição e as lições são importantes: ajudam-nos a crescer].

eu sou inteiramente responsável por tudo o que me acontece... seja o bom, seja o menos bom. porque eu faço o meu caminho com as minhas decisões, os meus pensamentos. se estiver sempre a reclamar da vida com pensamentos desagradáveis, acredito que o universo faz-me a vontade. tipo: já que pensas tanto nisso, aqui está mais do mesmo...

por isso, canto. e danço. mesmo na rua... são os meus interruptores secretos. assim que um pensamento menos bom aparece na minha mente, ligo o interruptor e esse pensamento se desvanece com uma nuvem de fumo[há quem diga que foge de medo porque eu canto mesmo mal, hummm. não sei. provavelmente]. também ando sempre com a minha máquina fotográfica na mala. e nada escapa... eu adoro fotografar, mesmo sem sentido.

não obstante, eu ando tão estranha, ultimamente. e nem os meus interruptores secretos parecem funcionar. não sei porquê. ando insatisfeita, triste, desmotivada, distante de mim mesma. por vezes, sinto-me em piloto automático[eu já vi este filme, lá no tempo do armário dividido em dois... e não gostei mesmo nada do desenlace].

é claro que podemos culpar o tempo ou o outono. quem sabe a lua? o meu pai acredita que sim, é a lua. o antónio diz que pode ser... afinal, a lua é um excelente bode expiatório. também pode ser falta de serotonina... pelo menos, é o que o médico me disse: e que tal um anti-depressivo?
[e pronto, já cá faltava o anti-depressivo]

segundo a minha irmã[sim, na minha família, todos dão o seu palpite... por isso, é que lhe chamo família. para o bem e para o mal. sempre juntos], o meu trabalho é a causa porque esse trabalho não é para ti. quase que acreditei... porque eram tantos com a mesma conversa que não tive outra hipótese senão questionar-me se teria feito a melhor escolha. e sim, este é - sem dúvida - o meu trabalho...

então, o que será?

não sei...

[ou talvez saiba... parece que escrever está a ajudar-me a perceber o que vai cá dentro].

sábado, 13 de novembro de 2010

{rewind}


lembro-me de estar muito frio. ia de mãos dadas com a minha mãe e com o meu pai. a rua era tão comprida que não se chamava rua: era uma avenida[sim, a minha mãe já tinha-me explicado isso].

caía uma chuva miudinha que me enevoava os olhos... parecia que estávamos envoltos num nevoeiro que molhava tudo.

onde vamos? já te dissemos que é uma surpresa. pronto, está bem[chatos].

lá ao fundo, no meio daquela espécie de nevoeiro feito de lágrimas fininhas[porque as nuvens estavam tristes... mas, não sei bem porquê... a minha mãe nunca me explicou], uma nuvem de fumo branco. que nuvem é aquela? é o senhor das castanhas. assadas? sim. que bom! adoro castanhas assadas! podemos comprar? quando lá chegarmos. que cheirinho bom... vamos mais depressa!

debaixo de um grande chapéu[igual ao nosso, mas o nosso é para usar na praia... que estranho], estava um senhor a assar castanhas. as mãos estavam tão sujas... porque as folhas de jornal e as castanhas assadas sujam muito. ah! então, está bem.

depois de ter o meu canudinho feito de folha de jornal, cheio de castanhas assadas, bem apertadinho entre minhas mãos, pediram-me para olhar para trás: um prédio gigante com um poster quase tão gigante como o prédio. nesse poster, estavam dois cães e muitos[tantos!] cãezinhos brancos com pintas pretas!

esta é a surpresa...

e é por isso que, sempre que vejo uma nuvem de fumo branca com um cheirinho bom, a sobressair de um nevoeiro, lembro-me daquele dia em que aprendi que uma rua muito grande, não se chama rua, mas avenida. que as nuvens choram quando estão tristes, que os senhores das castanhas têm as mãos muitos sujas porque as folhas de jornal e as castanhas assadas sujam muito. e, principalmente, lembro-me da primeira vez que fui ao cinema... com um canudinho feito de folha de jornal, cheio de castanhas assadas. quentes e boas... quentinhas.

domingo, 7 de novembro de 2010

{nostalxia...}

anoitece... uma rapariga chega no seu carocha a uma falésia, liga o isqueiro do carro à caneca, enquanto prepara o café. depois, sai do carro e olhando o mar, bebe-o ao som dos acordes da música...


i can see clearly now, the rain is gone
i can see all obstacles in my way
gone are the dark clouds that had me blind
it's gonna be a bright (bright), bright (bright), sun shiny day
it's gonna be a bright (bright), bright (bright), sun shiny day

i think i can make it now, the pain is gone
all of the bad feelings have disappeared
here is that rainbow I've been praying for
It's gonna be a bright (bright), bright (bright), sun shiny day

look all around, there's nothing but blue skies
look straight ahead, there's nothing but blue skies

i can see clearly now, the rain is gone
i can see all obstacles in my way
gone are the dark clouds that had me blind
it's gonna be a bright (bright), bright (bright), sun shiny day
it's gonna be a bright (bright), bright (bright), sun shiny day
it's gonna be a bright (bright), bright (bright), sun shiny day
it's gonna be a bright (bright), bright (bright), sun shiny day

johnny nash

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

{viver... de aparências}

conheci a madalena há cerca de dez anos no meu grupo de yôga, onde os seus dotes culinários eram sobejamente conhecidos. fazia de cada prato, um verdadeiro monumento à cozinha vegetariana.

madalena tinha um sonho: ser chef de cozinha. para azar dela, era uma excelente aluna e os pais fizeram de tudo para que ela seguisse enfermagem [tipo "seguir as pegadas dos pais"] porque ser chef não traz prestígio e tu, enquanto viveres nesta casa, fazes o que o pai e a mãe decidirem porque nós é que sabemos o que é melhor para ti [citando os pais da mada, que também conheci e de quem ouvi esta barbaridade].

hoje a madalena é enfermeira. desempregada, frustrada, deprimida. mas enfermeira, como os seus pais tanto quiseram.

no seu último post, madalena critica esta necessidade quase patológica de se ter o tal dr. atrás do nome. segundo ela, se uma pessoa não for licenciada em qualquer coisa, não é ninguém na vida.

Na nossa sociedade, ou se é Doutor ou não se é nada. Limpezas domésticas, pintura ou carpintaria... há cada vez menos pessoas que queiram fazer estes serviços porque são profissões, de alguma forma, mal vistas pela família, amigos, vizinhos... conheço quem tenha seguido uma destas profissões mas nega-o [três vezes, se for necessário].

Então, comadre: o que é o que o seu filho faz, lá pela cidade? Se o dito for Doutor, a comadre enche a boca. Se não for Doutor, enche do mesmo jeito. Uma mentirinha não vai trazer mal ao mundo.


quando li isto, fartei-me de rir porque isto acontece lá naquela terrinha linda que eu adoro e de que tanto falo. é mesmo assim. aliás, no facebook, é descrita como a "terra dos doutores"...

ri-me mas fiquei triste porque a madalena tem toda a razão. e isso só pode ser um péssimo indicativo de que este país perdeu.

o quê? a transparência.

poucos são aquilo que querem ser.
muitos ocultam o que realmente são.

a madalena queria ser chef de cozinha mas a sociedade recusou-lhe o prestígio, tão importante para os seus pais... e como a madalena, há tantos outros.

o meu pai, agora reformado, foi alfaiate e, depois do vinte e cinco de abril até à reforma, cantoneiro de limpeza. posto de lado por uma boa parte da família, era o homem do lixo. há uns tempos atrás, o marido de uma tia minha, polícia de profissão, disse-lhe que ele teria que subir muitos degraus para chegar até ele[infelizmente, eu não estava presente porque eu teria-lhe dito exactamente o que fazer com a farda]. eu aprendi muito com a profissão do meu pai... por vezes, ia com ele para o trabalho e sentia imenso orgulho dele. afinal, o meu pai ajudava a cidade a estar limpa! e os lisboetas eram tão porquinhos... [e ainda são. é só olhar para o chão e para os eco-pontos].

a minha mãe foi costureira, empregada de limpeza e ama. com ela aprendi a cozinhar e a tratar de uma casa. posso dizer que tive a melhor professora porque tudo o que ela faz, sabe fazê-lo muito bem. e filho de peixe...
[presunção e água benta...]

há cerca de vinte anos, eu queria seguir o ensino. mas sempre gostei de pensar a longo prazo e apercebi-me que essa profissão, daí a alguns anos, estaria estagnada. por isso, resolvi frequentar um curso técnico e muitas pestanas queimadas mais tarde, tornei-me técnica de óptica. um bom emprego com um bom cargo numa excelente empresa...

contudo, fiquei doente e tive que abandonar a minha profissão. tal como tive que abandonar a minha casa.

voltar a morar com os meus pais significava lidar com a profissão da minha mãe, dia após dia. ela era cuidadora de crianças. o que eu aprendi nos últimos oito anos... não foi só a mudar fraldas, fazer o biberão ou a interpretar choros. aprendi a amar sem exigir nada em troca. porque lidar com crianças é isso mesmo. um acto de amor.

[há algumas semanas atrás, estive no msm com uma menina que eu ajudei a "criar", juntamente com a minha mãe, claro: estás tão grande...(lágrimas a correr, sorriso tremido) olha, que eu já tenho oito anos!!! sim, minha querida... mas eras tão pequenina quando eu te peguei no colo, pela primeira vez... ]

quando a doença começou a dar tréguas, eu e minha mãe fizemos um género de parceria e passamos a ser colegas de trabalho. todos [família, amigos...] sabiam disso mas, muitas vezes, uma das minhas tias telefonava lá para casa e quase sempre, a meio da conversa, pérola das pérolas: mas tu estás a trabalhar? onde? então, não trabalho com a minha mãe? ah, isso...

ah, isso...

[ ai, madalena, madalena... os teus pais tinham toda a razão, amiga]


quando a minha doença entrou em remissão, decidi que estava na hora de dar a reforma à minha mãe. ela estava muito cansada e já só estava a trabalhar para me ajudar. confesso que me custou imenso despedir-me dos meus traquinas... eles eram tudo, para mim.

vais voltar para a óptica? não. então? não sei...

há muita procura na minha área com excelentes vencimentos. ainda trabalhei numa clínica, por uns tempos. mas, não era nada daquilo que eu queria.

eu queria voltar a fazer aquilo que estivera a fazer durante os últimos oito anos. mas, estudaste tanto...

sim. estudei. queimei pestanas, neurónios e sei lá mais o quê. se estou arrependida? [aqui, ficaria bonito dizer que o saber não ocupa lugar e não sei mais o quê, mas não vou dizer nada disso] estou arrependida, sim. foram anos que desperdicei a fazer algo que não me preenchia, cá dentro. eu tinha uma posição muito boa[social, profissional...], um excelente ordenado... mas era infeliz. tanto que adoeci.

primeiro, um grave esgotamento que deixou sequelas... e a seguir, a espondilite. [sim, eu sei que não é uma doença profissional, mas reumática. sei, ainda, que muitos portadores podem viver uma vida inteira sem que a doença se manifeste. tal como sei que, neste tipo de doenças, há factores que podem ajudar a desencadear a doença... e no meu caso, o responsável foi tudo o que girava à volta da minha profissão].

de que me vale o prestígio... estando doente?

hoje, é com tristeza que vejo a minha mãe "engolir em seco" sempre que diz que não sou mais técnica de não sei quê, porque decidi ser cuidadora [como ela o foi] e que estou a ajudar a crescer um menino[que me faz sorrir, só de me lembrar do seu sorriso...].

e... cereja no bolo: muitos já me disseram que fui de
"cavalo para burro".
...

conheço muitas pessoas que frequentam o ensino superior porque estão atrás de um sonho, da sua vocação. a essas pessoas, eu desejo toda a sorte do mundo. hoje, mais do que nunca acredito que devemos seguir o nosso coração. pode parecer romantismo, mas é a maior verdade que algum dia possamos conhecer.

também conheço pessoas como a madalena. a esses, digo-lhes que ainda estão a tempo. nem só de pão vive o homem e não é o prestígio que vos vai alimentar a alma. e, acreditem, a certa altura, irão sentir o peso da escolha.

quanto a mim... se eu poderia voltar a trabalhar na minha antiga área, se eu poderia fazer menos quinze horas semanais, trabalhar bem menos e ganhar três vezes mais do aquilo que ganho?

poder, podia...

mas, não seria a mesma coisa (^_~)


para a fábrica de letras, sob o tema: transparente

domingo, 31 de outubro de 2010

{chove... e então?}

você é uma dessas pessoas que acordam numa certa manhã,
vêem que está chovendo e dizem:






"que dia miserável?”






não é um dia miserável. é apenas um dia molhado. se usarmos as roupas apropriadas e mudarmos nossa atitude, podemos nos divertir bastante num dia chuvoso. agora, se nossa crença for a de que dias de chuva são miseráveis, sempre receberemos a chuva de mau humor. lutaremos contra o dia em vez de acompanharmos o fluxo do que está acontecendo no momento.

não existe "bom" ou "mau" tempo, existe somente o clima e nossas reacções individuais a ele.

se quisermos uma vida alegre, precisamos ter pensamentos alegres. se quisermos uma vida próspera, precisamos ter pensamentos de prosperidade. se quisermos uma vida com amor, precisamos ter pensamentos de amor. tudo o que enviamos para o exterior, mental ou verbalmente, voltará a nós numa forma igual.


louise l. hay


post recuperado daqui...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

{dicionário de bolso | a}

[ribeira das forcadas - cheires, trás-os-montes]
aipo

s. m.
bot. planta apiácea muito conhecida e de aplicação culinária.

in priberam

eu costumo utilizar o aipo para perfumar caldos, sopas, molhos. gosto de o preparar com alguma calma, deixar que o seu perfume se espalhe pela cozinha e envolva todos os meus sentidos, enquanto fecho os olhos e inspiro.

sei onde estou. à minha volta, uma miríade de sons, cores, aromas. pertinho da ribeira das forcadas, está uma pequena horta. tomates vermelhos[cheios], pimentos[de todas as cores], malaguetas[vermelhas... picantes] e pepinos verdes. no chão, gordas abóboras cujos braços se estendem pela terra, preguiçosos.

e o aipo.

esse cresce selvagem,
bem perto dos agriões [também eles, selvagens],
ao lado da ribeira.

e
x
p
l
o
s
ã
o

de

c
h
e
i
r
o
s

e desta explosão que invade aquele espaço mágico, há um que se destaca. e é por isso. é só por isso que, sempre que posso, cozinho qualquer coisa com aipo.

não pelas suas presumíveis propriedades afrodisíacas, não pela sua reconhecida fonte de potássio nem porque combina bem com couves, frango, pepino, peixe, salada de batata e em sumos com maçã e cenoura.

só pelo aroma penetrante[com notas de noz moscada, citrinos e salsa]. aquele que me leva a viajar, que me ajuda a fazer perto de quinhentos quilómetros em segundos. que me leva para junto da ribeira das forcadas. onde eu sou completamente, feliz.

domingo, 24 de outubro de 2010

{short cut}


farda branca ou verde, socas azuis leves e confortáveis. seringas, agulhas, adesivo canetas, papeis sei lá mais o quê nos bolsos. pernas doridas... ah!(já me esquecia) mal pago!


é assim que miguel se apresenta.

cheirinho a éter, fala-nos da realidade crua e dura do dia-a-dia de um enfermeiro. sem eufemismos [como eu gosto], alguns textos são verdadeiros "murros no estômago". mas todos mostram-nos a enorme capacidade que este enfermeiro tem de se dar ao seu semelhante. uma vez, num comentário, disse-lhe que jamais poderia enveredar por essa carreira por falta de vocação. é assim mesmo. conseguir subtrair-se em prol do outro é algo que nem todos são capazes.

miguel está de partida. o seu caminho, neste pequeno país à beira mar plantado, chegou a uma "espécie" de beco sem saída. porém, um outro caminho o espera, lá pelos lados do grande lago de genebra. e precisa da nossa ajuda. criou o blog asas para voar.
onde colocarei os artigos que serão postos à venda, por uma verdadeira pechincha, e que poderão ser empregues nas vossas casas, em casas de férias, casas para alugar, quintas, quintais, cozinhas rústicas. Não peço que comprem mas peço que passem a palavra!
[comprem! vamos ajudar a conseguir os sapatos certos para esta família!]

e quem passou grande parte de uma vida a ajudar os outros, nada mais certo que poder contar com a nossa ajuda.


e há o gastão. esse cão lindo da fotografia. infelizmente, para grande tristeza de todos, o gastão não pode acompanhar a família, nesta nova caminhada. ele precisa de um lar. e sei, no fundo do meu ser, que conseguiremos encontrar a família certa.



caminhante, não há caminho. faz-se o caminho ao andar: miguel, toda a força do mundo, é o que desejo a ti e aos teus!

sábado, 16 de outubro de 2010

{baby steps}

[fotografia tirada num areal, guincho. a modelo é a minha irmã caçula]

terça-feira, 12 de outubro de 2010

{o passarinho azul}

@

depois do médico ter-me dito que o meu caminho terminaria numa rua sem saída, senti-me perdida. sem rumo, deambulei pela estrada [com os pés cada vez mais feridos] durante muito tempo. um certo dia, o tal caminhante que me estendeu a mão, ajudou-me a procurar uns sapatos que adequassem melhor àquela jornada que tinha pela frente. os sapatos eram magníficos e as dores tinham desaparecido, tal milagre.

feliz, resolvi gritar aos sete ventos que o caminho não terminava numa rua sem saída e que era possível caminhar, sem estar de mão dada com aquela dor que me atormentava a caminhada [que segundo o médico (e com o tempo, viria a revelar-se assim), seria cada vez mais lenta, cada vez mais tortuosa, cada vez mais difícil].

um passarinho passava e ouviu-me. de asas feridas, juntou-se a mim.

depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. guardei a minha no bolso. e fui.

caio f. abreu


e isto foi o que aconteceu comigo... o passarinho, apesar da sua asa ferida, esteve sempre do meu lado. de cor azul, o passarinho chilreava sons tão belos que me embalavam nas horas mais difíceis [que foram muitas, porque nem sempre os sapatos produziam efeito e as recaídas repetiam-se, umas atrás das outras].

durante a minha caminhada, o passarinho azul foi, tantas e tantas vezes, o meu abrigo, o foco luminoso que me ajudava nos dias mais enevoados e nas noites mais escuras. a este passarinho devo a minha vida. porque, com a sua ajuda, cheguei ao fim do caminho e descobri que, afinal, não era um fim... apenas, um novo começo. e que este novo começo era cheio de flores amarelas.

[obrigada, meu lindo passarinho azul... gosto tanto de ti...]

sei que o meu amigo passarinho azul anda um pouco triste e isso deixa-me sem saber o que fazer. gostaria de pintar o céu de azul cintilante, encher o sol de amarelo quente e as flores, pintá-las de todas as cores do arco-íris.

passarinho azul, como eu não sei pintar... um abraçinho apertadinho acompanhado de muitos beijinhos, ajudará?

domingo, 10 de outubro de 2010

{a arte de ser feliz}


houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. nesse ovo costumava pousar um pombo branco. ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. no canal oscilava um barco. um barco carregado de flores. para onde iam aquelas flores? quem as comprava? em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? e que mãos as tinham criado? e que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. à sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. e contava histórias. eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. perto da janela havia um pequeno jardim seco. era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. e eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

cecília meiréles

terça-feira, 5 de outubro de 2010

{rewind}

lembro-me de acordar sobressaltada. a cama estava aos soluços e as paredes sentiam-se tremer. pressentia-se um rebuliço, lá fora. levantei-me e corri para os braços da minha mãe. é só uma tempestade. ah, então está bem.

a porta da rua estava aberta e a janela da sala de jantar também [porque um raio pode entrar em casa e assim tem por onde sair, dizia a minha tia]. subi ao sofá e debrucei-me no parapeito. a casa dos meus tios, em trás-os-montes, fica mesmo em cima de uma montanha, rodeada por outras tantas montanhas... sim, eu acordara mesmo a tempo de assistir à soirée e ocupava o melhor lugar da sala.

o céu, qual tela pintada por um artista enraivecido: chicotadas de dourado e prateado rasgavam o negro e transformavam a noite em dia. a banda sonora, tenebrosa, ensurdecedora.

sai daí, rapariga, que é perigoso! mas, tia... pronto, está bem. [chata].

a minha mãe voltara-se a deitar. está frio, vou dormir. a minha tia, expressão fechada, parecia rezar. o meu tio, enfiado na cama... deixa-o lá, sabes que ele tem medo da trovoada. um adulto com medo da trovoada... [hihihi!!!].

o meu pai colocou meio copo de água em cima da mesa. em cima do copo de água, um pedaço de pão. em cima do pão, uma faca. é para cortar a trovoada. ah... cortar a trovoada. boa.

a tempestade começou a amainar e eu fui-me deitar que o sono começava a pesar-me nos olhos.

de manhã, acordei com o barulho do povo, na estrada. geralmente, aquelas pessoas falam alto, mas naquele dia, falavam ainda mais alto. pareciam agitados, nervosos... corri para a rua. a trovoada dessa noite destruíra quase todas as culturas. as vinhas, as oliveiras... depressa, porém, abstraí-me daquele lamento e olhei à minha volta.

as montanhas, com cores mais nítidas do que o costume. cintilantes. fechei os olhos e respirei fundo. o aroma... aquele que fica depois da chuva beijar a terra...

hoje, quando sinto o cheiro da chuva, lembro-me daquela noite. em que a minha tia rezava e o meu tio [medroso, hihihih] se escondia debaixo dos lençóis. e, principalmente, da mágica que o meu pai fez com meio copo de água, um pedaço de pão e uma faca:

ele conseguira cortar a trovoada...

para a fábrica de letras, sob o tema: o cheiro da chuva

sábado, 2 de outubro de 2010

{short cut}

mulher, mãe, amiga... uma comum mortal. é assim que atena se descreve. eu prefiro usar outros adjectivos: forte, generosa, persistente, corajosa... e capaz de um amor que nos contagia e nos faz render.

peso dos sentidos fala-nos de uma mãe, de um filho e de uma causa, o autismo.

eu não posso falar sobre este tema porque pouco sei sobre ele. dizem que são seres especiais. uma coisa eu tenho a certeza... depois de conhecer o pequeno vasco, através das palavras de sua mãe, sinto que este menino é especial, sim. mas, também a sua mãe o é [de uma coragem e força que me arrebata e me faz sentir pequena].

este é um blog a visitar diariamente. eu visito e não há dia em que não saia com uma lágrima teimosa e com um sorriso cheio de ternura.

obrigada, atena por partilhar connosco tanto que tem aprendido, que tem vivido, que tem amado.

e um beijinho ao vasco...

["O Luizinho é castanho e cheira a chocolate" - disse o Vasco de um amiguinho. Ora digam-me: haverá algo mais... que estas palavras?]

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

{às 7 da manhã, disse "boa tarde" ao motorista}










areia. fina. escorre pelo crivo dos meus dedos...

momento de

l
u
c
i
d
e
z

esvai-se.

não sei. não sinto. não quero.

d
e
m
ê
n
c
i
a

d
e
c
a
d
ê
n
c
i
a
overdose de mim.


[estou tão cansada... vou dormir. até amanhã...]

terça-feira, 28 de setembro de 2010

{...}


mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
tenho vontade de chorar,
tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro..
amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã..
sim, talvez só depois de amanhã...

fernando pessoa

domingo, 26 de setembro de 2010

{baby steps}



namorar é estar bem com a vida,
sorrir o sorriso da criança…

sábado, 25 de setembro de 2010

{rewind}


lembro-me de estar ansiosa pelo primeiro dia de férias. a viagem era tão longa. dorme... assim chegaremos mais depressa, dizia a minha mãe. e assim era.

quando chegávamos, corria à tua procura e tu estavas sempre escondido, à minha espera. passávamos o mês de agosto inteiro a implicar um com o outro... mas éramos inseparáveis. prima, não. mana, chamavas-me. e eu, mano, te sentia. crescemos longe mas sempre juntos. a distância física jamais conseguiu manter-nos afastados.

se queres estar junto de alguém que amas, não te parece que já lá estás?

quando eu não estava bem, tu sabias e eu sentia quando tu precisavas de mim. caminhámos sempre juntos, sempre de mãos dadas...

lembras-te?

[a distância que nos separa, hoje, é outra. a pior de todas. nunca me disseste porquê, nem porque não. simplesmente, viraste numa curva do caminho. deixaste-me sozinha sem uma palavra ou gesto. não compreendo. eu tento... mas não encontro uma explicação para o que aconteceu. dizem que se pode morrer de amor. eu acredito que assim seja. um pouco de mim morre todos os dias...]

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

{f.a.l.l.}


when i fall in love...

domingo, 19 de setembro de 2010

{looking down the road}

há uns dias atrás, ouvi uma opinião de uma rapariga sobre as vítimas da casa pia. "conheço muito bem: são ladrões, drogados, prostitutos". segundo ela, só se faziam de vítimas porque queriam "protagonismo".

são opiniões destas que me fazem tremer porque mostram como a sociedade se está tornar numa sociedade cruel, fria.

"são ladrões, drogados, prostitutos", agora. na altura eram meninos com dez ou onze anos. "são ladrões, drogados, prostitutos" porque, segundo a opinião dessa rapariga, "escolheram o caminho mais fácil".

escolheram? fácil... para quem?

acredito que existam vítimas de abusos sexuais que conseguem retomar o caminho. e jamais duvidemos da força dessas pessoas. infelizmente, nem todos têm essa força. porque o medo é maior. medo da noite, medo do outro, medo do toque. e é tão difícil viver com medo. perder o rumo. sim, o medo pode fazer uma pessoa perder o rumo.

só quem não foi abusado pode falar desta maneira. não passou pelo terror e pela dor [física e psicológica]. estas pessoas que julgam as vítimas desta forma, não sabem nada de nada.

se as vítimas da casa pia [hoje, à altura dos factos eram meninos, meninas...] "são ladrões, drogados, prostitutos" não seria mais correcto tentar ajudar ao invés de julgar? não. julgar é mais fácil porque permite a distância.

e... longe da vista, longe do coração.


[e jamais esqueçamos: estes homens e mulheres foram vítimas de um local que supostamente servia para protecção. todos nós - o estado português - temos a obrigação de ajudar quem, um dia, foi retirado à família porque estava "em risco" e acabou nas mãos dos verdadeiros monstros]

domingo, 12 de setembro de 2010

{looking down the road}



ontem, numa reportagem da sic, falava-se de desemprego. este desemprego, porém, era um desemprego diferente.




parece que o único denominador comum entre os ex-executivos e/ou ex-quadros de empresa e os outros desempregados é o facto de terem de se dirigir aos centros de emprego. tudo o resto que se segue é diferente.

fiquei a saber que os primeiros, quando despedidos, têm toda uma máquina que os auxilia em vários aspectos, de modo a que este novo estatuto não se prolongue por muito tempo e, acima de tudo, para que a sua auto-estima não seja afectada. após o despedimento, estes desempregados são encaminhados para uma empresa que os ajuda na requalificação de competências entre outras coisas.

a universidade nova de lisboa também contribui com formação gratuita e tem como objectivo desenvolver o potencial em gestão. além do curso ser gratuito, estes formandos têm acesso gratuito à formação, materiais, refeições e certificado.

um dos responsáveis por este projecto, com um sorriso nos lábios e de olhos a brilhar, dizia que estes formandos "são pessoas de qualidade que estão com professores de qualidade numa universidade de qualidade". o seu sonho, segundo suas palavras, era que estes homens e mulheres conseguissem retomar em breve a sua vida de executivos ou que conseguissem ter o seu próprio negócio..."e que daqui a algum tempo dissessem que foi naquele verão chuvoso que mudaram as suas vidas".
...

há muitos anos atrás - era eu uma criança - o canal 1 (único, na altura) passou, por várias vezes, um filme animado titulado "o triunfo dos porcos". tinha mais ou menos de 8\9 anos. aquele filme era muito triste: uns porcos maus comiam muito enquanto os outros animais morriam de fome. e, o pior, é que no fim matavam aquele cavalo velhinho, coitadinho.

eu era demasiado jovem e inocente para compreender a mensagem de george orwell. contudo, nunca esqueci aquela frase [apesar de não compreender o seu significado] que os porcos repetiam constantemente.

essa frase está cada vez mais presente na sociedade de hoje. o que eu não sabia era que, até no desemprego todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

um aparte: eu não estou, de modo algum, contra estas iniciativas. o que me revolta é que não seja para todos...

[post recuperado... porque passado um ano, tudo continua na mesma...]

sábado, 4 de setembro de 2010

{multimedia message service}


...e está um dia tão lindo para o fazer...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

{short cut}


fê-blue bird [d]escreve com sentimento a vida, tal como ela é. se alegre, pinta-la com tons de verão. mas, se triste, não pinta a vida com tons de inverno. lutadora, procura pintar esses dias com tons de outono. tons quentes, como o seu coração. para que esses dias, ainda que tristes, não entristeçam quem a lê.

dá-nos força para avançar... por isso, uma leitura recomendada. todos os dias... ainda que só por cinco minutos.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

{baby steps}

enfeite-se com margaridas e ternuras
e escove a alma com flores
com leves fricções de esperança
de alma escovada e coração acelerado
saia do quintal de si mesmo
e descubra o próprio jardim.

carlos drummond de andrade

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

{o rei está morto}

adoro estudar: uma verdadeira marrona. desde menina que sou assim. nas férias grandes, levava sempre duas malas para trás-os-montes [onde passava todo o mês de agosto]: uma mala com roupa, a outra com os livros da escola. quando chegava às aulas, já tinha as lições quase todas estudadas e os exercícios quase todos resolvidos. e era assim com todas as matérias.

[bem, a minha relação com a matemática não era famosa: tinha um ódio de estimação pelos números porque o meu pai decidiu que eu tinha que ser como ele e, sempre que estava comigo, obrigava-me a recitar a tabuada (sempre salteada), a resolver problemas, adições, subtrações, multiplicações, divisões... uma verdadeira tortura. entretanto, vi-me obrigada a colocar o ódio à matemática de lado devido ao meu curso. e, confesso, que fiquei fã da dita]

uma das minhas matérias preferidas era a história de portugal. eu conseguia estar horas seguidas a ouvir aquelas histórias sobre as mulheres e os homens que tornaram o nosso país, a "cabeça" da europa. eu tinha um orgulho em ser portuguesa... descobrimos terras, enfrentámos medos, abrimos caminhos... sim, portugal era um povo nobre com heróis em terra e no mar... uma nação valente e imortal.

[imortal, não. o rei está morto]

da cabeça passámos para a cauda. o país tornou-se pequeno, ridiculamente, pequeno. os ricos [cada vez mais ricos] sufocam os pobres [cada vez mais pobres]; a violência junta-se à criminalidade e de mãos juntas com a impunidade, tomam conta da sociedade; o desemprego traz ainda mais fome para as mesas dos portugueses cada vez mais desesperados, mais desanimados... mais deprimidos; desactivam-se caminhos de ferro, as escolas fecham, as aldeias ficam desertas... a agricultura morre. o que não morre, o português [perdido, louco...] mata com um fósforo ou um isqueiro.

a cauda da europa...

e a culpa é nossa. porque o permitimos. todos, de uma maneira ou de outra, contribuímos para esta queda abismal: passámos de nação conhecida [temida por uns e admirada por outros] para um pedaço de terra que ninguém conhece. ou até conhece, porque somos parte integrante dos pigs .

estamos a cair a pique e nada nem ninguém parece conseguir amortizar a queda.

[o rei está morto. viva o rei. viva portugal]

recuperado para a fábrica de letras

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

{???}

descobri este vídeo lá no rei da lã...



alguém me explica o que raio passou na cabeça daquela mulher? o gatinho foi-lhe pedir festinhas... e acaba no lixo???

[pelo menos, aconteceu na inglaterra... lá existe a rscpa. se tivesse sido em terras de camões, nada. não se passaria nada.]

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

{twittering}


nada como uma chuvinha de verão...

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

{existem caminhos...}


existem caminhos para quem quer caminhar.
existem caminhos para qualquer lugar.
caminhos escuros, perigosos, trilhas estranhas,
e estradas largas cruzando planícies tamanhas
que nunca se sonhou poder atravessar.

existem caminhos verdejantes e belos
que nos levam de castelo em castelo,
de covil em covil, através dos bosques
cheios de fadas e feras, terras das hostes
das pessoas feitas de sonhos, imaginárias...

existem caminhos sempre
basta persistir e seguir.
os deuses da estrada abençoam
aquele que não se deixa cair.

eu só quero encontrar o jardim
no qual eu possa me deitar e sonhar...

Daniel Duende

[...não podemos deixar de o procurar.]

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

{nem arte... nem cultura: tortura}


há uns tempos atrás, assisti a um debate sobre touradas, onde um dos aficionados falava do orgulho e da honra que o touro sentia ao entrar na arena.

[???]

será que os tais aficionados acreditam mesmo naquilo? é que tão absurdo...

o que o touro sente não deve ser orgulho ou tão pouco honra. medo. deve sentir muito medo. e dor. o touro sente os ferros a rasgarem-lhe a carne. o touro sente o peso desses ferros que, a cada passo, se enterram, rasgando, ferindo cada vez mais. o touro sente as feridas a serem novamente feridas por mais ferros serrados, afiados, pesados... mais carne a rasgar. e a dor. sente muita dor.

[medo. deve sentir mesmo muito medo.]

tradição e cultura. palavras que escondem, que minimizam, que embelezam a barbárie e a crueldade que ferve no sangue do homem. até há pouco tempo atrás, faziam-no a homens, mulheres e até a crianças mas a civilização ditou o seu fim. então, procuraram outras vítimas. que não tivessem direitos, ou voz.

o animal [dito irracional] foi escolhido. o animal [dito irracional] não pode fugir. o animal [dito irracional] não se pode revoltar. o animal [dito irracional] não consegue fazer-se ouvir. porque para o homem, o animal [dito irracional] não passa de uma coisa.

mas o homem está enganado. o animal [dito irracional] não é uma coisa que podemos comprar, vender, abandonar, ferir, matar... o animal [dito irracional] é como nós: sente frio, sente calor. fica triste. alegre. morre de saudade. e sente medo...

[tento colocar-me no lugar do touro. não. não me sinto honrada ou orgulhosa. sinto-me em pânico. porque me rasgam a carne com ferros pesados. luto para me livrar deles mas não consigo e eles enterram-se cada vez mais. o medo apodera-se de mim. medo que me voltem a espetar. sinto-me cada vez mais fraca. os meus olhos estão toldados pela dor, pela perda de sangue... só vejo sombras. e mais um ferro espetado. estou aterrorizada, completamente perdida. não. não me sinto honrada ou orgulhosa. sinto a morte. terrível, cruel... agonizante. morte.]


As touradas têm que acabar. não podemos continuar a aceitar que os crimes continuem sem punição porque tão pouco são considerados crimes. está na hora de se fazer alguma coisa...

[petição pelo fim das corridas de touros em portugal, aqui...]

terça-feira, 17 de agosto de 2010

{rewind}


lembro-me de caminhar durante horas, quilómetro após quilómetro. o silêncio. mudo. sufocante. não se ouvia o chilrear dos pássaros, o canto das cigarras ou o zumbido das abelhas. também não se ouviam as carícias do vento nas folhas das árvores.

as mil e uma cores do verão também tinham desaparecido. a cor cinza do caminho confundia-se com a cor da floresta. o verde das agulhas dos pinheiros, o amarelo das maias, o vermelho das papoilas ou aquele azul especial das pequenas flores da alfazema... tinham-se apagado. as cores coloridas do verão deram lugar à cinza cinzenta. e ao preto.

os aromas, uma miríades deles... substituídos pelo cheiro a queimado.

a floresta. abafada. vencida pela mão criminosa do homem.

mãe, o que é mão criminosa? é quando o homem ateia o fogo à floresta. porque é que o homem quer matar a floresta? sei lá...

eu lembro-me.

[e não há como esquecer, infelizmente. porque o homem continuar a matar o verde, o amarelo, o vermelho ou o azul especial das pequenas flores da alfazema. fica o silêncio. o negro. o cheiro a desolação... e as lágrimas... sim, também ficam as lágrimas.]

sábado, 14 de agosto de 2010

{baby steps}




...gostar de viver é o segredo, é meio caminho andado...

domingo, 8 de agosto de 2010

{hot... very hot...}

@

...so hot...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

{os sapatos certos}








but...











gosto muito de viajar. meter os pés ao caminho, fazer-me à estrada. sempre preparada, claro, porque eu gosto de ter uma ideia do terreno que vou pisar.

para uma viagem, porém, não me preparei [ninguém se prepara para uma viagem destas]. foi uma longa viagem... o pior foram os sapatos. não eram os melhores e o caminho era íngreme. com os pés feridos, tropeçava e caía. constantemente.

até que um viajante passou por mim e lavou-me os olhos [a poeira do caminho impedia-me de abri-los]. depois de tratar das minhas feridas, perguntou-me porquê. porque é que insistes em usar os sapatos errados?

ele tinha toda a razão... o mau não é ser apanhada desprevenida, estúpido é insistir num erro. eu não estava à espera da viagem, é certo. contudo, poderia ter procurado, durante a viagem, uns sapatos melhores.
[procurei e encontrei. os sapatos certos ]

com os pés confortáveis, de mãos dadas com o viajante, continuei o meu caminho. a nós, juntaram-se outros viajantes. também eles, apanhados desprevenidos, também eles... com uma longa viagem à sua frente.

aprendi muito, com esta viagem. aprendi que todo o caminho é caminho. só precisamos dos sapatos certos. não existem caminhos impossíveis: há caminhos difíceis, é certo... mas há sempre uma maneira de ultrapassar os obstáculos. basta querer, basta procurar dentro de nós.

[e, principalmente, há que viajar sempre acompanhada]

para a fábrica de letras, sob o tema: uma longa viagem

sexta-feira, 30 de julho de 2010

{a viagem}

antónio feio em o que diz molero

quem me conhece sabe que não considero a morte, um fim. vejo-a como uma preparação para a próxima caminhada na grande viagem que é a vida.

[tive o privilégio de conhecer o grande antónio feio no palco do teatro villaret em 1999: o que diz molero. que representação...]

caminhante... obrigada por teres partilhado a tua caminhada connosco. adorei conhecer-te. faz uma boa viagem. e até um dia...

sábado, 17 de julho de 2010

{finalmente... as férias}



...fui...

[até para a semana...]

sábado, 10 de julho de 2010

{rewind}

@

lembro-me de te ter pedido em casamento. disseste-me que não e eu fui agarrar-me à minha mãe, a chorar.

que idade teríamos? uns quatro, cinco anos? que saudades daqueles tempos em que a nossa única preocupação era brincar de manhã até à noite...

lembras-te?

[tens sido um bom amigo, meu querido. sei que não preciso, mas...
bigada]

domingo, 4 de julho de 2010

{a felicidade pode estar na casca de uma batata}

o que nos faz ser feliz, foi o tema de uma reportagem que passou ontem, no jornal da noite da tvi. segundo os entrevistados, a "felicidade pode estar numa gota de água, num grão de areia, em números ou estrelas da sorte, nuns pedais de uma bicicleta, na casca de uma batata ou simplesmente no acreditar que há príncipes e princesas que vivem felizes para sempre"...

hoje, a felicidade esteve nos meus braços... nasceu no dia 23 de junho e é lindo, lindo, lindo... cheira a bebé, a milagre da vida. sim... hoje, tive a felicidade nos braços.


[um beijinho da tia babada...]

terça-feira, 29 de junho de 2010

{ténis... ou avião?}


há muitas formas de fazer uma viagem. eu já caminhei muito mas também já andei de avião. viajar em primeira classe é diferente...

hoje, uma antiga companheira de viagem perguntou-me porque é que voltei à estrada, aos ténis. afinal [segundo ela], eu tinha tudo para voltar às viagens em primeira classe. fiquei a olhar para ela, por uns minutos...

voltar à primeira classe significa voltar ao poder, voltar ao jogo, à competição. eu gosto de competição: competir ajuda a crescer. mas... o mundo está tão diferente. a competição tornou-se suja. as pessoas, corrompidas pela sede de poder, não se importam de pisar e humilhar quem quer que seja para conseguirem alcançar os seus objectivos.

faz parte do jogo...
e eu não sei jogar.

[eu não quero jogar]

então, eu olhei para essa minha antiga companheira de viagem e disse-lhe que existem muitas maneiras de viajar. uns viajam em primeira classe, outros caminham. e assim está bem... nem todas as pessoas precisam de viajar de avião. há pessoas que caminham e gostam de o fazer. eu gosto.

ela não compreendeu. também não me esforcei muito para lhe explicar. há pessoas [principalmente, as que já viajaram em primeira classe] que acreditam que voltar a caminhar significa fracasso.
[how sad is it...]

a vida deu-me a hipótese de escolher: avião... ou ténis. eu escolhi os ténis. e estou feliz por isso. quem não compreender... uppss... paciência. as pessoas que são importantes para mim, os meus amigos e a minha família [a que importa, a que está e sempre esteve ao meu lado] entenderam a minha decisão. e isso para mim chega.

os outros... são os outros.

[tão longe de mim... os outros... felizmente, tão longe]

domingo, 27 de junho de 2010

{cair faz parte da caminhada... tal como levantar}

{and I get nosebleed
but I always get up}



hoppipolla by sigur ros


[é como se voltássemos a ser meninos e meninas, novamente. saltamos felizes nas poças de água e celebramos pequenas [grandes] vitórias com a alegria de uma criança. e mesmo com feridas nos joelhos e o nariz a sangrar... levantamo-nos sempre porque temos a vida toda pela frente...]

quarta-feira, 23 de junho de 2010

{o presente envenenado}

esta semana, a lição foi-me dada por uma criança de nove anos. a mãe recebeu um email ofensivo que a deixou bastante triste. ao ver a mãe, assim tão abalada, disse-lhe:



"recebeste um presente envenenado.
mas podes
decidir se o aceitas...
ou não"




todos os dias recebemos presentes envenenados. doença, desemprego, decepções que nos ferem de morte. a vida encarrega-se disso.

mas a pequena [grande] inês, com a sua sabedoria de criança, tem a resposta certa para estes presentes envenenados: nós temos o poder de decisão. podemos aceitar estes presentes... ou não.

não aceitar. não baixar os braços, ir à luta. jamais desistir perante um não. porque há sempre a possibilidade de existir um sim. acreditar no sim que existe em nós mesmos... desconfiar sempre no não dos outros.

quando fui diagnosticada, eu ouvi o não do médico: não, não existe cura. mas sim. ela existe. eu sou a prova. e existem mais provas por esse mundo fora. também me disseram que não conseguiria voltar a trabalhar. sim, estou a trabalhar [mais que alguma vez trabalhei]. ao meu pai, disseram-lhe que ele não voltaria a andar, depois daquele acidente terrível que ele teve. mas, sim ele voltou a andar [aliás, não pára quieto]. à otília pires de lima, disseram-lhe que não teria mais que três semanas de vida... e já lá vão anos...

e tantos outros não, que eu ouvi [tanto a mim, como a pessoas que eu conheço] que foram transformados em sim...

cabe-nos a nós decidir.


[e tu? aceitaste o teu presente envenenado?]

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